marcilio
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
UNIDADE ACADÊMICA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM AGRONOMIA – PRODUÇÃO VEGETAL
E PROTEÇÃO DE PLANTAS
ATIVIDADE INSETICIDA DA FOLHA E DA TORTA DA SEMENTE DE NIM
Azadirachta indica A. Juss. (MELIACEAE) NO CONTROLE DE Spodoptera
frugiperda (J. E. Smith, 1797) (LEPIDOPTERA: NOCTUIDAE) EM MILHO Zea
mays L. (POACEAE)
MARCÍLIO DE SOUZA SILVA
RIO LARGO – ESTADO DE ALAGOAS - BRASIL
JUNHO DE 2009
MARCÍLIO DE SOUZA SILVA
ATIVIDADE INSETICIDA DA FOLHA E DA TORTA DA SEMENTE DE NIM
Azadirachta indica A. Juss. (MELIACEAE) NO CONTROLE DE Spodoptera
frugiperda (J. E. Smith, 1797) (LEPIDOPTERA: NOCTUIDAE) EM MILHO Zea
mays L. (POACEAE)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em
Agronomia, do Centro de Ciências Agrárias, da Universidade
Federal de Alagoas, como parte dos requisitos para obtenção
do título de Mestre em Agronomia, área de concentração em
Produção Vegetal e Proteção de Plantas.
Orientação: Profª. Drª. Sônia Maria Forti Broglio-Micheletti
RIO LARGO – ESTADO DE ALAGOAS - BRASIL
JUNHO DE 2009
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária Responsável: Helena Cristina Pimentel do Vale
S586a
Silva, Marcílio de Souza.
Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica
A. Juss (Meliaceae) no controle de Spodoptera frugiperda (J. E. Smith, 1797)
(Lepidoptera : Noctuidae) em milho Zea mays L. (Poaceae) / Marcílio de Souza
Silva, 2009.
xii, 52 f. : il. tabs.
Orientadora:Sônia Maria Forti Broglio Micheletti.
Dissertação (mestrado em Agronomia : Produção Vegetal) – Universidade
Federal de Alagoas. Centro de Ciências Agrárias. Rio Largo, 2009.
Inclui bibliografia e anexos.
1. Milho. 2. Pragas agrícolas. 3. Lagarta-do-cartucho. 4. Plantas inseticidas.
I. Título.
CDU: 633.15
TERMO DE APROVAÇÃO
ATIVIDADE INSETICIDA DA FOLHA E DA TORTA DA SEMENTE DE NIM
Azadirachta indica A. Juss. (MELIACEAE) NO CONTROLE DE Spodoptera
frugiperda (J. E. Smith, 1797) (LEPIDOPTERA: NOCTUIDAE) EM MILHO Zea
mays L. (POACEAE)
Marcílio de Souza Silva
(Matrícula: 2007M21D013S-3)
Dissertação apresentada e avaliada pela banca examinadora em 15 de junho de 2009,
como parte dos requisitos para obtenção do grau de Mestre em Agronomia, Área de
concentração em Produção Vegetal e Proteção de Plantas do Programa de PósGraduação em Agronomia da Unidade Acadêmica Centro de Ciências Agrárias da
Universidade Federal de Alagoas.
RIO LARGO – ESTADO DE ALAGOAS – BRASIL, EM 15 DE JUNHO DE 2009
À minha querida mãe, Valci Francisca de Souza Santos,
pelo esforço, dedicação, incentivo e contribuição para a obtenção deste título;
Aos meus irmãos, Marcos Paulo Souza de Almeida, Cícero Carlos Souza de Almeida e
Moana Vitória de Souza Silva,
por torcerem pelo meu sucesso;
À minha futura esposa, Cleane de Souza Silva,
pela compreensão, carinho e por estar presente em todos os momentos.
Dedico
Agradecimentos
À Universidade Federal de Alagoas, através da Coordenação de Pós-Graduação em
Agronomia (Produção Vegetal e Proteção de Plantas), pela oportunidade de realizar
meu curso de pós-graduação.
À Profª. Drª. Sônia Maria Forti Broglio-Micheletti, pela orientação, amizade, apoio e
grande contribuição na minha vida acadêmica, a minha eterna gratidão.
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas, pela concessão de bolsa de
estudos.
Aos meus colegas do Laboratório de Entomologia: Ismael Barros Gomes, Emerson dos
Santos Ferreira, Chirlene Lays Alexandre, José Anderson Soares Barros, Leilianne
Alves de Souza e Jakeline Maria dos Santos.
Aos colegas da pós-graduação: Alana de Lima Mendonça, Alice Maria Nascimento de
Araújo, Renan Cantalice de Souza, Sihélio Júlio Silva Cruz, Carlos Jorge da Silva,
Romel Duarte Vilela e Adriano Jorge Nunes dos Santos, pelo companheirismo e
convívio.
Ao Coordenador do Mestrado, Prof. Dr. Gaus Silvestre de Andrade, pelo apoio e
colaboração.
Aos professores: Drª. Roseane Cristina Prédes Trindade, Dr. Paulo Vanderlei Ferreira,
Dr. Mauro Wagner de Oliveira e Dr. Jorge Braz Torres pelos ensinamentos
transmitidos.
Aos Secretários do Mestrado, Geraldo de Lima e Marcos Antônio Lopes, pelo apoio e
convívio.
Ao Engenheiro Agrônomo MSc. José Antônio da Silva Madalena pela contribuição na
análise estatística dos dados.
A curadora do herbário MAC do Instituto do Meio Ambiente do Estado de Alagoas,
Rosângela Pereira Lyra Lemos, pela identificação botânica.
A todos aqueles que direta ou indiretamente, contribuíram com a realização deste
trabalho.
Sumário
Página
Lista de Tabelas.................................................................................................
ix
Lista de Figuras..................................................................................................
x
Resumo Geral.....................................................................................................
xi
General Abstract................................................................................................
xii
1 Introdução Geral............................................................................................
1
2 Revisão de Literatura.....................................................................................
4
2.1 Aspectos gerais da cultura do milho..........................................................
4
2.1.1 Botânica e descrição.............................................................................
4
2.1.2 Importância econômica da cultura.....................................................
4
2.1.3 Pragas que causam danos à cultura...................................................
6
2.2 Distribuição, danos e bioecologia de Spodoptera frugiperda....................
7
2.3 Principais estratégias de controle de Spodoptera frugiperda....................
9
2.3.1 Controle alternativo de Spodoptera frugiperda com plantas
inseticidas............................................................................................................
10
2.4 Principais características de Azadirachta indica.......................................
11
3 Referências......................................................................................................
14
Capítulo I - Toxicidade da folha e da torta da semente de nim sobre a
lagarta-do-cartucho em milho..........................................................................
21
Resumo................................................................................................................
21
Abstract..............................................................................................................
22
1 Introdução..................................................................................................
23
2 Material e Métodos....................................................................................
25
3 Resultados e Discussão..............................................................................
28
4 Conclusões..................................................................................................
34
5 Referências..................................................................................................
35
Capítulo II - Atividade inseticida de extratos aquosos de nim em
diferentes vias de aplicação sobre a lagarta-do-cartucho..............................
38
Resumo................................................................................................................
38
Abstract..............................................................................................................
39
1 Introdução..................................................................................................
40
2 Material e Métodos....................................................................................
42
3 Resultados e Discussão..............................................................................
44
4 Conclusões..................................................................................................
48
5 Referências..................................................................................................
49
Anexos.................................................................................................................
53
ix
Lista de Tabelas
Página
Capítulo I
Tabela 1: Dados de inclinação ± EP das curvas de concentraçãomortalidade CL50, X2 , probabilidade dos extratos aquosos de Azadirachta
indica (5 e 10 DAA) em lagartas de Spodoptera frugiperda, Rio Largo/AL,
dezembro de 2008..............................................................................................
28
Tabela 2: Avaliação de extratos aquosos de Azadirachta indica sobre
lagartas de Spodoptera frugiperda em duas épocas de avaliação, Rio
Largo/AL, dezembro de 2008...........................................................................
30
Tabela 3: Porcentagem da mortalidade de lagartas de Spodoptera
frugiperda após aplicação dos extratos aquosos de Azadirachta indica, Rio
Largo/AL, dezembro de 2008...........................................................................
31
Capítulo II
Tabela 1: Avaliação de inseticidas naturais à base de nim sobre lagartas
de Spodoptera frugiperda, através de nota da escala de danos e da área
foliar após o consumo da folha +3, Rio Largo/AL, dezembro de 2008.........
44
Tabela 2: Avaliação de inseticidas naturais à base de nim sobre lagartas
de Spodoptera frugiperda, através do comprimento das lagartas e da
largura da cabeça, Rio Largo/AL, dezembro de 2008....................................
46
x
Lista de Figuras
Página
Revisão de Literatura
Figura 1: Cartucho do milho danificado por Spodoptera frugiperda, Rio
Largo/AL, dezembro 2008................................................................................
7
Figura 2: Ciclo biológico de Spodoptera frugiperda: A = Ovo; B =
Lagarta; C = Pupa e D = Adulto.......................................................................
8
Figura 3: Árvore de nim Azadirachta indica, Rio Largo/AL, dezembro
2008......................................................................................................................
12
Capítulo I
Figura 1: Lagarta de Spodoptera frugiperda apresentando a exúvia presa
à parte terminal do corpo. Rio Largo/AL, dezembro de 2008.......................
29
Figura 2: Mortalidade de lagartas de Spodoptera frugiperda aos 5 DAA
com extrato aquoso de nim, Rio Largo/AL, dezembro de
2008......................................................................................................................
31
Figura 3: Mortalidade de lagartas de Spodoptera frugiperda aos 10 DAA
com extrato aquoso de nim, Rio Largo/AL, dezembro de
2008......................................................................................................................
32
xi
Resumo Geral
SILVA, M. S. Universidade Federal de Alagoas, junho de 2009. Atividade inseticida
da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica A. Juss. (Meliaceae) no
controle de Spodoptera frugiperda (J. E. Smith, 1797) (Lepidoptera: Noctuidae) em
milho Zea mays L. (Poaceae). Orientadora: Profª. Drª. Sônia Maria Forti BroglioMicheletti.
A lagarta-do-cartucho Spodoptera frugiperda é considerada a mais importante praga da
cultura de milho. O controle alternativo desta praga com Azadirachta indica A. Juss.
(Meliaceae) tem sido bastante promissor, porém poucos trabalhos descrevem o uso de
resíduos de nim no seu controle. O trabalho foi dividido em uma revisão de literatura e
dois capítulos experimentais. O primeiro teve por objetivo avaliar a toxicidade de
extratos aquosos de folhas e torta da semente de nim em lagartas de S. frugiperda
alimentadas com folhas de milho tratadas em laboratório. Já o segundo, objetivou
avaliar o efeito de folha e torta da semente de nim, em três vias de aplicação em telado.
No capítulo I, fez-se a determinação da CL50 com análise de Probit em duas épocas de
avaliação, além de um esquema fatorial 2x2+1 para avaliar dados de biometria do inseto
e regressões para mortalidade. No capítulo II, realizou-se a análise de variância, sendo
as médias comparadas pelo teste de Tukey e Kruskal-Wallis a 5% de significância. Os
valores estimados da CL50 para os extratos aquosos com folha e torta de nim foram de
0,38% (m/v) e 0,31% (m/v), respectivamente. Em relação ao comprimento das lagartas,
largura da cabeça e peso do inseto, houve interação significativa entre as épocas e os
tratamentos testados. Houve diferença significativa entre os extratos aquosos testados,
aos 5 e aos 10 dias após a primeira aplicação. O tratamento torta na via foliar-líquida foi
o que obteve a menor nota de danos com 2,08 na escala de notas, mas não diferiu do
tratamento com torta na via solo. Na análise da área foliar após o consumo da folha +3,
observou-se que houve diferença significativa entre os tratamentos com torta na via
líquida (93,86 cm2) e a testemunha (66,46 cm2). Em laboratório, lagartas de S.
frugiperda foram mais suscetíveis ao extrato aquoso de torta do que o extrato aquoso de
folha de nim em relação à mortalidade. Houve diferença entre as épocas de avaliação
em relação ao comprimento das lagartas, largura da cabeça e peso. Em telado, o extrato
aquoso à base de torta foi o mais eficiente no controle de larvas de S. frugiperda. A via
foliar em forma de pó foi a menos eficiente.
Termos para indexação: Lagarta-do-cartucho, plantas inseticidas, Meliaceae, resíduo.
xii
General Summary
SILVA, M. S. Federal University of Alagoas, June 2009. Insecticidal activity of the
leaf and of the neem seed pie Azadirachta indica A. Juss. (Meliaceae) in the control
of the Spodoptera frugiperda (J. E. Smith, 1797) (Lepidoptera: Noctuidae) in maize
Zea mays L. (Poaceae). Orientated by: Professor and Dr. Sônia Maria Forti BroglioMicheletti.
The Spodoptera frugiperda fall armyworm is considered the main pest of the maize
culture. The alternative control of this pest by means of Azadirachta indica A Juss.
(Meliaceae) has been sufficiently promising; however, few works describe the use of
neem residues in its control. This work was divided into a literature review and two
experimental chapters. The first had as objective to evaluate the toxicity of aqueous leaf
extracts and neem seed pie in worm of S. frugiperda fed with laboratory treated maize
leaves. As for the second, the objective was to evaluate the leaf and pie of the neem
seed effect, in three ways of application in greenhouse. In chapter I, the determination
of the CL50 was done with analysis of Probit at two season of evaluation, besides a
factorial 2x2+1 scheme to evaluate the biometric insect data and regressions to
mortality. In chapter II, the variance analysis was carried out, the measurements being
compared by the Tukey and Kruskal-Wallis test at 5% of significance. The estimated
values of the CL50 for the aqueous extracts neem with leaf and pie were of 0.38% (m/v)
and 0.31% (m/v), respectively. In relation to the length of the worm, width of the head
and weight of the insect, there was significant interaction between the season and the
treatments tested. There was significant difference between the tested aqueous extracts,
to the 5 and to the 10 day after the first application. The pie treatment in the leaf-liquid
way was what obtained the lowest note of damages with 2.08 in the note scale, but did
not differ from the treatment with pie in the soil way. In the analysis of the leaf area,
after the consumption of +3 leaf, there was observed a significant difference between
the treatments with pie in liquid way 93.86 cm2 and the control 66.46 cm2. In
laboratory, S. frugiperda worms were more susceptible to the aqueous leaf extract than
to the aqueous pie extract of neem in relation to the mortality. There was difference
between the season of evaluation in relation to the length of the worm, width of the head
and weight. In greenhouse, the aqueous extract based on the pie was the most efficient
in the control of worm of S. frugiperda. The leaf way in form of powder was the least
efficient.
Index Terms: Fall armyworm, insecticidal plants, Meliaceae, residue.
1 Introdução Geral
O homem, quando passou a se organizar em sociedade, viu-se obrigado a
desenvolver métodos que permitissem a sua permanência em um local fixo,
desencadeando assim, a necessidade de criar animais e cultivar plantas. Desde então,
buscou meios de aperfeiçoar e maximizar essas atividades na tentativa de alcançar uma
produção de alimentos quantitativa e qualitativa. Talvez, o primeiro método a ser
desenvolvido no decorrer destas descobertas tenha sido o melhoramento de plantas,
principalmente aquelas com potencial para a produção de alimentos.
Em meio a estas descobertas, outros métodos e técnicas foram sendo
desenvolvidos; naturalmente o homem e sua descendência souberam separar as plantas
que lhes faziam bem daquelas tóxicas que lhes faziam mal, permitindo a utilização de
ambas de forma criteriosa e organizada. Este processo certamente só veio funcionar
com o advento da agricultura e com o uso do melhoramento genético. Porém, de acordo
com Norris et al. (2003), as cultivares foram melhoradas e à medida que provocavam
alterações nos organismos e nos processos fisiológicos, as lavouras tornavam-se mais
susceptíveis ao ataque de pragas, causando danos e perdas no rendimento.
Entretanto, apesar das perdas, tem-se obtido resultados positivos em relação à
produção agrícola, e isto pode ser atribuído ao uso de tecnologias cada vez mais
avançadas em diversos segmentos que permeiam este setor da sociedade. Isto promoveu
a solução de problemas e a geração de outros, que para serem solucionados, necessitam
cada vez mais do conhecimento. A busca incessante pela solução de problemas levou à
modernização da agricultura e ao abandono de técnicas consideradas primitivas,
gerando uma nova forma de produzir alimentos.
Esta modernização deflagrou-se com a responsabilidade de acabar com a fome
do mundo por meio da agricultura, promovendo no meio rural, o incentivo ao uso
indiscriminado de agrotóxicos, máquinas pesadas e adubos minerais altamente solúveis
como alternativa tecnológica. Sabe-se que a fome não é um problema da quantidade de
alimentos, mas sim um problema relacionado a fatores político-sócio-econômicos.
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica ...
2
Tanto, que é geralmente nos países mais densamente povoados que as condições de vida
das populações são relativamente melhores (Mairesse, 2005).
A aplicação desta tecnologia promoveu um forte desequilíbrio nos ecossistemas
e ocasionou falsos resultados em longo prazo. Com esse sistema vieram também muitos
casos de intoxicações de operadores, aumento da mortalidade de animais domésticos e
silvestres, contaminação dos solos, das águas e dos alimentos com resíduos de
pesticidas, um conjunto de ocorrências que afeta, direta e indiretamente, a saúde das
comunidades envolvidas na produção de alimentos (Roel, 2001).
Evidentemente, o homem buscou através da toxidez natural das plantas uma
forma de controlar e minimizar os danos ocasionados pelas pragas tentando proteger
seus cultivos, mas os métodos modernos e industrializados venceram esta batalha e
disseminaram pelo mundo, provocando o aparecimento de novas pragas e de populações
resistentes aos inseticidas em uso. As plantas inseticidas deixaram de ser utilizadas, não
tanto pela maior eficiência momentânea dos organossintéticos, mas principalmente pela
maior economicidade destes, sob o prisma e condições da época (Mairesse, 2005).
Talvez esse seja o momento de resgatar e gerar o conhecimento científico quanto
ao uso de plantas com atividade inseticida, pelo menos ao nível de pequenos produtores
rurais, reduzindo os problemas ambientais provocados pelo campo. Segundo
Vendramim & Castiglioni (2000), o ressurgimento do interesse pelos inseticidas de
origem vegetal originou-se da necessidade de buscar novas substâncias no controle de
pragas, sem problemas ambientais, resíduos em alimentos, efeitos nocivos sobre
predadores e outros organismos úteis, retardando o aparecimento de resistência a
inseticidas, comuns na utilização dos agrotóxicos convencionais.
Além disso, face à problemática ambiental do uso de agrotóxicos há uma
crescente demanda dos mercados nacional e internacional por alimentos orgânicos, a
qual tem modificado o comportamento dos agricultores, que estão passando a se dedicar
a formas mais eficientes de produção sem resíduos químicos, reduzindo assim a
agressão ao meio ambiente (Bittencourt, 2006).
No Brasil, um país de grande dimensão agrícola, estudos envolvendo o uso de
plantas inseticidas têm atingido bons resultados, existindo até produtos comercializáveis
à base de produtos naturais. Porém, ainda se faz necessário o esforço conjunto, tanto de
governo quanto de pesquisadores e instituições de pesquisa, para tornar esse uso uma
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
3
realidade rural, devido à grande diversidade biológica de espécies com potencial para
este fim.
Sendo assim, este trabalho teve como objetivo geral avaliar o efeito da utilização
do nim Azadirachta indica A. Juss. (Meliaceae) como inseticida natural no controle da
lagarta-do-cartucho Spodoptera frugiperda (J. E. Smith, 1797) (Lepidoptera:
Noctuidae),
fornecendo informações
que
o tornem
economicamente
viável,
minimizando o uso indiscriminado de inseticidas sintéticos, reduzindo os impactos
ambientais e promovendo a sustentabilidade dos ecossistemas.
Este trabalho possui além da revisão de literatura dois capítulos, sendo que no
Capítulo I, o objetivo foi avaliar, em laboratório, a toxicidade de extratos aquosos de
folhas e torta da semente de nim em lagartas de S. frugiperda alimentadas com folhas de
milho. No Capítulo II, o objetivo foi avaliar, em telado, o efeito da folha e da torta da
semente de nim em três vias diferentes de aplicação, no controle de S. frugiperda.
2 Revisão de Literatura
2.1 Aspectos gerais da cultura do milho
2.1.1 Botânica e descrição
O milho é uma monocotiledônea, pertencente à família Poaceae, Subfamília
Panicoideae, gênero Zea e espécie Zea mays L. (Siloto, 2002). É uma espécie diplóide e
alógama, originada há aproximadamente sete a dez mil anos no México e na América
Central. É considerada uma das plantas cultivadas mais antigas e um dos vegetais
superiores mais estudados, possuindo caracterização genética mais detalhada dentre as
espécies cultivadas (Guimarães, 2007).
É uma planta de ciclo vegetativo variado, evidenciando desde cultivares
extremamente precoces, cuja polinização pode ocorrer 30 dias após a emergência, até
mesmo aquelas cujo ciclo vital pode alcançar 300 dias. Contudo, nas condições
brasileiras, a cultura do milho apresenta ciclo variável entre 110 e 180 dias, em função
da caracterização dos cultivares (superprecoce, precoce e normal), período este
compreendido entre a semeadura e a colheita (Fancelli & Dourado Neto, 2000).
Sua origem tem sido bastante estudada e várias hipóteses foram propostas,
porém as mais consistentes são aquelas que demonstram que o milho descende do
teosinto Euchlaena mexicana Schrad. (Poaceae), que é uma gramínea com várias
espigas sem sabugo, que pode cruzar naturalmente com o milho e produzir descendentes
férteis (Galinat, 1995).
Estudos arqueológicos fornecem elementos que permitem afirmar que o milho já
existia como cultura, ou seja, em estado de domesticação, há cerca de quatro mil anos e
que já apresentava as principais características morfológicas que o definem
botanicamente na atualidade (Guimarães, 2007).
2.1.2 Importância econômica da cultura
O milho representa um dos principais cereais em todo mundo, sendo cultivado
em pequenas, médias e grandes propriedades (Fancelli & Dourado Neto, 2000). É um
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
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alimento que se caracteriza por se destinar tanto para o consumo humano como para os
animais. Na realidade, o uso do milho em grão para alimentação animal representa a
maior parte do consumo desse cereal, isto é, cerca de 70% no mundo (Duarte, 2009).
O milho é uma das culturas de maior importância econômica para o Brasil, a
produção de 33,1 milhões de toneladas na 1ª safra, representou 66,5% do total de milho
em grão estimado para 2009, e o milho 2ª safra representou 33,4% da produção total de
milho em grãos, estimado em 16,6 milhões de toneladas (CONAB, 2009).
Apesar de estar entre os três maiores produtores, o Brasil não se destaca entre os
países com maior nível de produtividade, devido ao grande número de pequenos
produtores que cultivam esse cereal. A importância desta cultura ainda está relacionada
ao aspecto social, pois a maioria dos produtores não é altamente tecnificada, não possui
grandes extensões de terras, mas depende dessa produção para viver (Duarte, 2009).
Neste contexto, pode-se, portanto, afirmar que há uma clara dualidade na
produção de milho no Brasil. Uma grande parcela de pequenos produtores que não se
preocupa com a produção comercial e com altos índices de produtividade, e uma
pequena parcela de grandes produtores, com alto índice de produtividade, usando mais
terra, mais capital e mais tecnologia na produção de milho (Guimarães, 2007).
O aumento da área de plantio e da produtividade de milho permitiu ao Brasil
passar de importador a exportador a partir da safra 2000/01 (FNP Consultoria &
Comércio, 2002). Esse fato positivo para a economia do País ocasionou alguns
problemas de manejo desde então, pois o cultivo sucessivo de milho (safra e safrinha)
trouxe com ele um número crescente de pragas e doenças (Vendramim et al., 2005).
Durante muitas décadas a economia brasileira embasou-se no setor primário de
produção e, ainda hoje, ocupa uma posição de destaque no abastecimento mundial de
produtos de origem vegetal, sendo, portanto, o controle de pragas um desafio que
persiste e tem-se agravado ano após ano. Além disso, os inseticidas normalmente
utilizados pelos produtores estão perdendo sua eficácia devido à resistência dos insetos,
correndo sérios riscos de serem proibidos, assim a busca por inseticidas naturais menos
persistentes no meio ambiente e nos alimentos, com menor toxicidade a mamíferos e
maior seletividade vem crescendo rapidamente (Castro et al., 2006).
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
6
2.1.3 Pragas que causam danos à cultura
Em virtude do aumento da área plantada desta cultura, é natural que problemas
de ordem fitossanitária possam surgir e, muitos deles estão relacionados com o
aparecimento de insetos em desequilíbrio populacional, prejudicando o rendimento da
cultura.
De acordo com Gallo et al. (2002), os insetos considerados pragas na cultura do
milho podem ser divididos em quatro grupos a seguir:
a)
Pragas das raízes: Procornitermes striatus (Hagen, 1858) (Isoptera:
Termitidae) (cupim), Astylus variegatus Germar, 1824 (Coleoptera: Melyridae) (larvaangorá) e Diloboderus abderus Sturm., 1826 (Coleoptera: Melolonthidae) (coró);
b)
Pragas das folhas: S. frugiperda (lagarta-do-cartucho), Mocis latipes (Guen.,
1852) (Lepidoptera: Noctuidae) (curuquerê-dos-capinzais) e Deois flavopicta (Stal,
1858) (Homopetra: Cercopidae) (cigarrinha-das-pastagens);
c)
Pragas do colmo: Elasmopalpus lignosellus (Zeller, 1848) (Lepidoptera:
Pyralidae) (elasmo), Agrotis ipsilon (Hufnagel, 1767) (Lepidoptera: Noctuidae) (lagartarosca) e Diatraea saccharalis (Fabr., 1794) (Lepidoptera: Crambidae) (broca da canade-açucar);
d)
Pragas das espigas: Helicoverpa zea (Bod., 1850) (Lepidoptera: Noctuidae)
(lagarta-da-espiga) e Leptoglossus zonatus (Dallas, 1852) (Hemiptera: Coreidae)
(percevejo-do-milho).
Segundo Prates et al. (2003) dentre as pragas que mais provocam prejuízos
econômicos a várias culturas, a lagarta-do-cartucho S. frugiperda tem se destacado,
sendo considerada a mais importante praga nas condições do Brasil.
Em relação ao milho, o ataque de S. frugiperda pode ocorrer em todos os
estádios, ocasionando perdas na produção em até 38,7% (Williams & Davis, 1984;
Cruz, 1996). A lagarta destrói o cartucho, podendo também eventualmente, em períodos
de seca e especialmente no milho de segunda safra (“safrinha”), cortar plantas novas
rente ao solo, como a lagarta-rosca A. ipsilon (Costa et al., 1984). O período crítico de
ataque compreende os estádios correspondentes a duas e a dez folhas (Fancelli &
Dourado Neto, 2000). No final da cultura pode danificar a espiga com o mesmo hábito
da lagarta-da-espiga H. zea, sendo porém o ataque em qualquer parte da estrutura (Cruz,
1999).
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
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2.2 Distribuição, danos e bioecologia de Spodoptera frugiperda
A lagarta-do-cartucho foi reconhecida como praga de milho em 1797, na
Geórgia, Estados Unidos. Foi originalmente descrita com o nome de Phalaena
frugiperda. Desde então, o gênero foi várias vezes modificado, até chegar a
denominação atual de S. frugiperda (Cruz, 1995).
A lagarta pode ser encontrada nas Américas e em algumas ilhas a oeste da Índia.
Nos Estados Unidos, os insetos sobrevivem no inverno nas regiões tropicais do sul da
Flórida e Texas. Dali, as mariposas migram durante a primavera, verão e outono,
podendo se deslocar a grandes distâncias, atingindo as regiões ao norte do país até o
Canadá. No Brasil, em função da alimentação diversificada e disponível durante o ano
todo, assim como das condições climáticas favoráveis ao inseto, está distribuída em
geral, em todas as regiões do território nacional (Cruz, 1995).
S. frugiperda também é conhecida por lagarta-dos-milharais e lagarta-militar e é
a principal praga da cultura do milho no Brasil. O dano é causado pela lagarta que, no
início, apenas raspa a folha, mas quando desenvolvida, a perfura e danifica por
completo, destruindo conseqüentemente o cartucho (Figura 1). Possui hábito alimentar
diversificado, alimentando-se de diferentes hospedeiros, no entanto, exibem preferência
por algumas plantas, especialmente gramíneas, incluindo milho, trigo, sorgo e arroz.
Esse ataque é muito comum em milho safrinha (plantio de verão ou de segunda safra),
necessitando de cuidados especiais, principalmente se, na safra anterior, o manejo foi
inadequado (Farinelli & Fornasieri Filho, 2006). Mais de 50 variedades de plantas,
distribuídas em mais de 20 famílias botânicas, são relatadas como hospedeiras dessa
praga (Cruz, 1995).
Figura 1: Cartucho do milho danificado por Spodoptera frugiperda, Rio Largo/AL,
dezembro 2008.
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As mariposas põem de 1.500 a 2.000 ovos na página superior das folhas. Após
três dias eclodem as lagartas, que passam a se alimentar, primeiramente do córion dos
ovos. Posteriormente, permanecem em repouso de duas a dez horas. As lagartas jovens
antes de se alimentarem, são fototrópicas positivas, isto é, são atraídas pela luz; após
encontrarem alimento este fototropismo diminui, mas ainda persiste. A lagarta se
alimenta das folhas mais novas por se apresentarem mais tenras, raspando-as. Nessa
fase, atacam todas as folhas centrais, destruindo-as completamente (Figura 1). A
duração do período larval pode variar de 12 a 30 dias, estando diretamente relacionada
com a temperatura, que quanto maior, mais rapidamente a larva completa seu ciclo
(Gallo et al., 2002).
A cabeça da lagarta é escura, com estrias claras, que formam um “Y” invertido;
sua coloração varia de pardo-escura, verde até quase preta (Figura 2). Apresentam três
finíssimas linhas longitudinais branco-amareladas na parte dorsal do corpo. Na parte
lateral, logo abaixo da linha branco amarelada, existe uma linha escura mais larga e,
inferiormente a esta, uma listra amarela irregular marcada com vermelho (Cruz, 1995;
Gallo et al., 2002). Devido ao canibalismo, é comum encontrar-se apenas uma lagarta
desenvolvida por cartucho, podendo haver lagartas em ínstares diferentes, separadas
pelas lâminas das folhas (Fernandes, 2003).
Ao final do período larval, as lagartas penetram no solo, onde se transformam em
crisálidas, de coloração avermelhada, medindo cerca de 15 mm de comprimento, com
duração de 8 a 25 dias, após os quais emerge o adulto. A mariposa mede cerca de 35
mm de envergadura, sendo as asas anteriores pardo escuras e as posteriores branco
acinzentadas. (Gallo et al., 2002).
B
A
12 a 30 dias
3 a 5 dias
D
C
10 a 25 dias
8 a 25 dias
Figura 2: Ciclo biológico de Spodoptera frugiperda: A = Ovo; B = Lagarta; C = Pupa e
D = Adulto.
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
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2.3 Principais estratégias de controle de Spodoptera frugiperda
O método de controle mais utilizado para S. frugiperda é o químico (Cruz, 1999;
Valicente & Barreto, 1999), sendo a deltametrina um dos inseticidas mais usados em
cultivos de milho no Brasil visando o controle desta lagarta (Araújo et al., 2004). O
controle de S. frugiperda com inseticidas sintéticos, geralmente possui um custo
elevado de aplicação, com altos riscos de toxicidade e de contaminação ambiental,
causando desequilíbrio biológico (Prates et al., 2003).
As pesquisas têm mostrado impacto significativo de inseticidas sobre
componentes não-alvo do agroecossistema, como os inimigos naturais de pragas e os
detritívoros, que são populações importantes na manutenção de sua estrutura (Holland
et al., 2000; Margni et al., 2002).
A má regulagem dos equipamentos e a escolha incorreta de produtos químicos
têm aumentado o número médio de aplicações de inseticidas na cultura do milho, sem,
no entanto, atingir os objetivos de controle dessa praga, pois a cada ano, os danos
provocados pela lagarta-do-cartucho têm sido mais severos (Cruz, 1995).
Pelo fato da lagarta se alojar no interior do cartucho, muitas vezes, se torna difícil
o contato com o inseticida aplicado. Mas uma porcentagem razoável das lagartas é
atingida por doses subletais, o que não causa sua morte, mas causam alterações na
biologia e na capacidade de reprodução do inseto, causando redução populacional ao
longo das gerações (Silva & Crocomo, 2007).
Métodos de controle biológico com o uso de agentes entomopatogênicos como
fungo Metarhizium anisopliae (Metsch.) Sorok. e bactérias como Bacillus thuringiensis
Berliner, 1911 também têm sido bastante difundidos no controle de S. frugiperda (Cruz,
1995; Silva et al., 2008). Embora os bioinseticidas à base de Bacillus thuringiensis (Bt)
não tenham dado bons resultados no controle de S. frugiperda, tem-se observado que
plantas transgênicas com o gene Bt apresentam algum nível de resistência a essa espécie
(Waquil et al., 2002).
Outra forma de controle biológico tem sido o uso de predadores como Doru
luteipes
(Scudder,
1876)
(Dermaptera:
Forficulidae)
e
parasitóides
como
Trichogramma spp. (Hymenoptera: Trichogrammatidae), os quais atuam sobre ovos,
eliminando a praga antes que ocorram danos significativos. Mas, o sucesso desses
métodos depende de uma série de fatores como: método de distribuição, linhagem ou
espécie liberada, densidade da praga, entre outros (Cruz, 1995).
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Um método também importante é o controle cultural, que auxilia no combate às
pragas com práticas como a rotação de culturas, aração do solo, época do plantio e
colheita, destruição dos restos culturais (Cruz & Turpin, 1983). O controle cultural
através de aração após a colheita mata as pupas do inseto diretamente, por
esmagamento, ou indiretamente pela exposição aos raios solares (Cruz et al., 1995).
Outras estratégias de controle de pragas também são utilizadas, além das citadas
anteriormente como, por exemplo, o controle físico, o controle por comportamento e o
controle genético (resistência de plantas) (Gallo et al., 2002).
O controle desta praga através do uso de extratos vegetais também pode vir a ser
uma alternativa viável. O potencial inseticida de diversas plantas tem sido avaliado no
Brasil em relação a S. frugiperda, observando-se resultados promissores com algumas
espécies (Souza & Vendramim, 2000).
2.3.1 Controle alternativo de Spodoptera frugiperda com plantas inseticidas
A busca por métodos alternativos ao controle químico inclui a utilização de
produtos naturais que são menos agressivos ao ambiente, destacando-se entre estes os
inseticidas botânicos (Roel & Vendramim, 2006).
A família Meliaceae vem se destacando como uma das mais importantes fontes de
produtos inseticidas devido ao número de espécies com bioatividade e à eficiência dos
seus extratos (Roel & Vendramim, 2006). Muitas meliáceas vêm sendo pesquisadas
como fonte de extratos inseticidas para o controle de S. frugiperda como o nim
Azadirachta indica A. Juss., o cinamomo Melia azedarach L. e ainda espécies do
gênero Trichilia (Vendramim, 1997; Bogorni & Vendramim, 2003).
A família Meliaceae é de origem asiática, possui muitas espécies que são fontes
de princípios ativos com propriedades inseticidas e diferentes modos de ação em relação
a muitas espécies de insetos (Rodriguez & Vendramim, 1996). Destaca-se, dentre estas,
A. indica, conhecida popularmente como nim.
O nim possui alta capacidade como inseticida e é capaz de exercer diversos modos
de ação sobre os insetos, tais como: inibição alimentar, inibição da síntese do ecdisônio,
inibição da biosíntese da quitina, deformações em pupas e adultos, redução da
fecundidade e longevidade de adultos, alterações na capacidade de atração dos
feromônios, esterilização e inibição de oviposição, diminuição da transmissão de vírus e
mortalidade (Mordue (Luntz) & Blackwell, 1993; Rodriguez & Vendramim, 1996).
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Em casa de vegetação, Viana & Prates (2004) avaliaram os efeitos de diversas
formas e dosagens de extratos de nim, combinando formas e número de aplicações, no
controle de lagartas de S. frugiperda, demonstrando que a eficiência dos extratos de A.
indica depende da interação entre estes diversos fatores. Contra S. frugiperda o extrato
de nim mostrou alta eficiência de controle em laboratório, mas não competiu com os
inseticidas sintéticos (De Jesus et al., 2004). Já contra a traça-das-crucíferas Plutella
xylostella (L., 1758) (Lepidoptera: Plutellidae), além de eficiente, o óleo de nim teve
controle semelhante aos inseticidas convencionais (Thuler et al., 2004).
A extensão dos efeitos e o tempo de ação são dependentes da dosagem utilizada,
de maneira que a morte ocorre nas dosagens maiores e os efeitos menos intensos e mais
duradouros nas dosagens menores (Cruz, 2000).
Como as plantas aromáticas produtoras de óleos essenciais têm sido importantes
fontes de substâncias químicas com inúmeras atividades biológicas, o interesse em
pesquisa por plantas com atividade inseticida vem crescendo com outras espécies, por
exemplo, a mil folhas Achillea millefolium L. (Asteraceae) e o tomilho Thymus vulgaris
L. (Lamiaceae), que produzem óleos essenciais com atividades inseticidas (Castro et al.,
2003).
O emprego de substâncias extraídas de plantas silvestres, na qualidade de
inseticidas, tem inúmeras vantagens quando comparado ao emprego de sintéticos: os
inseticidas naturais são obtidos de recursos renováveis e são rapidamente degradáveis,
ou seja, não persistem no ambiente. O desenvolvimento da resistência dos insetos a
essas substâncias – compostas da associação de vários princípios ativos – é um processo
lento (Prates et al., 2003).
Dependendo da espécie vegetal e do tipo de utilização, os derivados pesticidas
podem ser utilizados sob forma pura, em estado de maceramento, em forma de pós ou
de extratos (especialmente em soluções aquosas), além de outras formas (Vendramim,
1997).
2.4 Principais características de Azadirachta indica
Dentre as espécies vegetais com atividade inseticida, a mais estudada é o nim,
também conhecida como margosa, nativa das regiões áridas da Ásia e África, e que se
encontra distribuída também na Austrália e América (Schmutterer, 1988; Mordue
(Luntz) & Blackwell, 1993).
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O nim é um arbusto oriundo da Índia e conhecido há 5.000 anos, apresenta
atividade contra mais de 430 espécies de pragas (Martinez, 2002). Extratos dessa planta,
amplamente usados na Índia, têm sido utilizados em cultivos orgânicos nos EUA,
Austrália e em países da África e da América Central (Akhtar, 2000; Mojumder &
Pankaj, 2000) e estão sendo estudados por pesquisadores brasileiros, para uso como
produtos alternativos aos agrotóxicos, para controlar diversas pragas (Castro et al.,
2003).
São árvores atrativas para insetos polinizadores, com grande quantidade de folhas
sempre verdes, do tipo imparipenadas, alternadas, com folíolos de coloração verde-claro
intenso, que caem somente em casos de seca extrema (Figura 3). As raízes penetram
profundamente no solo, onde o local permite, e quando sofrem algum tipo de dano,
produzem brotos. O sistema radicular da planta é composto por uma raiz pivotante, sua
principal sustentação, possibilitando a retirada de água e nutrientes de grandes
profundidades e de raízes laterais auxiliares (Mossini & Kemmelmeier, 2005).
As flores são pequenas, brancas, bissexuadas, brotam em feixes axiais,
arranjando-se em inflorescências de cerca de 25 cm de comprimento; possuem um
perfume semelhante ao mel e atraem muitas abelhas. Os frutos são lisos, glabros,
elipsóides, com 1,5 cm x 2 cm de comprimento, de cor amarelada quando maduros, com
uma polpa doce envolvendo as sementes, que são compostas por uma casca e um ou
mais caroços. As sementes e as folhas são usualmente empregadas no controle de pragas
(Mossini & Kemmelmeier, 2005).
Figura 3: Árvore de nim Azadirachta indica, Rio Largo/AL, dezembro 2008.
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A árvore normalmente começa a fornecer frutos após 3-5 anos do plantio, com
produção superando 25 kg/planta a partir do quinto ano. A produção de frutos ocorre
principalmente entre julho e setembro, podendo ocorrer uma segunda florada entre
novembro e janeiro. O nim é facilmente propagado, tanto sexualmente quanto
vegetativamente, podendo ser plantado por meio de sementes, mudas, árvores novas,
brotos de raiz ou tecido de cultura. Entretanto, o crescimento se mostra melhor em áreas
com chuvas anuais de 800 - 1800 mm, solos arenosos, profundos e bem drenados, com
pH entre 6,5 e 7,5 e temperaturas de 20 °C (Mossini & Kemmelmeier, 2005).
A planta é capaz de se proteger contra grande número de pragas por meio de
uma grande quantidade de compostos bioativos. Seus principais elementos químicos são
uma mistura de 3 ou 4 compostos correlatos, que podem ser modificados em mais de 20
outros menores, porém não menos ativos. No geral, esses compostos pertencem à classe
dos produtos naturais conhecidos por triterpenos, mais especificamente limonóides. De
fato, pelo menos 9 limonóides de nim têm demonstrado habilidade em bloquear o
desenvolvimento de pragas agrícolas. Dentre esses, o limonóide ou tetranortriterpenóide
azadiractina é o mais estudado e mais potente (Mossini & Kemmelmeier, 2005).
Esta substância tem efeito repelente, intoxicante, regula o crescimento e a
metamorfose dos insetos, causa deterrência alimentar, afeta a biologia, a oviposição e a
viabilidade dos ovos (Neves & Nogueira, 1996).
Vijayalakshmi et al. (1996) afirmam que a propriedade mais importante do nim
está relacionada ao impedimento alimentar do inseto. Quando uma lagarta entra em
contato com uma folha, esta tende a se alimentar dela. Este impulso em se alimentar é
proporcionado pelas glândulas do maxilar e os movimentos peristálticos no canal
alimentar tornam-se acelerados e assim a lagarta sente necessidade de se alimentar da
superfície da folha. Se a folha é tratada com um produto a base de nim, devido à
presença de azadiractina haverá um movimento antiperistáltico no tubo digestivo que
produzirá uma sensação semelhante a um regurgitar no inseto. Devido a esta sensação, o
inseto não se alimentará ou reduzirá sua alimentação da superfície tratada com nim.
Apesar de os compostos bioativos presentes no nim serem encontrados em toda
a planta, aqueles presentes primeiramente nas sementes e folhas são os que possuem
compostos mais concentrados e acessíveis, facilmente obtidos por meio de processos de
extração em água e solventes orgânicos como hidrocarbonetos, álcoois, cetonas ou
éteres (Martinez, 2002).
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Bibliografia elaborada segundo as orientações
da Associação Brasileira de Normas Técnicas
(ABNT – 6023, Agosto/2002) e das instruções
para submissão de trabalhos no periódico da
Pesquisa Agropecuária Brasileira.
Capítulo I
Toxicidade da folha e da torta da semente de nim sobre a lagarta-do-cartucho em
milho
Resumo – O objetivo foi avaliar a toxicidade de extratos aquosos de folhas e torta da
semente de nim Azadirachta indica A. Juss., em laboratório, sobre lagartas de
Spodoptera frugiperda alimentadas com folhas de milho. Na determinação da CL50
utilizou-se a análise de Probit, sendo observada em duas épocas distintas. Realizou-se
um fatorial 2x2+1 para avaliar dados de biometria do inseto, aplicando-se o teste de
Tukey e regressões para mortalidade. Cinco dias após a aplicação dos extratos os
valores estimados da CL50 para os extratos aquosos de folha e torta de nim foram de
0,38% (m/v) e 0,31% (m/v), respectivamente. Houve diferença significativa entre os
extratos aquosos testados, tanto aos 5 como aos 10 dias após a primeira aplicação.
Lagartas de S. frugiperda são mais susceptíveis ao extrato aquoso de torta de nim do
que ao extrato aquoso da folha em relação à mortalidade. Também ocorreram diferenças
significativas entre as épocas de avaliação em relação ao comprimento das lagartas,
largura da cabeça e peso. O extrato aquoso da torta de nim em baixas concentrações
ocasiona alta mortalidade e em altas concentrações tende à estabilidade.
Termos para indexação: Spodoptera frugiperda, controle alternativo, plantas inseticidas,
Meliaceae.
The leaf and neem seed pie toxicity on the fall armyworm in maize
Abstract – The objective was to evaluate the toxicity of aqueous leaf extracts and neem
seed pie of Azadirachta indica A. Juss., in laboratory, on Spodoptera frugiperda worm
fed with maize leaves. In the determination of the CL50, the analysis of Probit was used,
being observed at two distinct season. A 2x2+1 factorial was done to evaluate biometric
data of the insect, applying the Tukey test and regressions to mortality. Five days after
the application of extracts, the estimated values of the CL50 for aqueous extracts of
neem leaf and pie were of 0.38% (m/v) and 0.31% (m/v), respectively. There was
significant difference between the tested aqueous extracts, as much to the 5 as to the 10
day after the first application. The S. frugiperda worms are more susceptible to the
neem aqueous leaf extract than to the aqueous pie extract in relation to mortality. There
also occurred significant differences between the occasions of evaluation in relation to
the length of the worm, width of the head and weight. The aqueous extract of the neem
pie in low concentrations causes high mortality and in high concentrations, the stability
tends.
Index Terms: Spodoptera frugiperda, alternative control, insecticidal plants, Meliaceae.
1 Introdução
De existência milenar, o milho representa um dos principais cereais em todo
mundo e é cultivado em pequenas, médias e grandes propriedades. No Brasil, é
considerada cultura de expressão nacional, de importância social e econômica, presente
de norte a sul do país (Oliveira et al., 2007).
A lagarta-do-cartucho Spodoptera frugiperda (J. E. Smith, 1797) (Lepidoptera:
Noctuidae) ataca diversas culturas, sendo considerada a mais importante praga de milho
nas condições do Brasil, causando prejuízos aos agricultores (Gallo et al., 2002).
O controle de pragas é geralmente realizado com produtos químicos sintéticos
que, além de nem sempre serem eficientes, acarretam diversos problemas, tais como
resíduos nos alimentos, destruição de inimigos naturais, intoxicação de aplicadores,
aparecimentos de populações de pragas resistentes aos inseticidas, entre outros efeitos
diretos e indiretos (Roel et al., 2000).
Além disso, os inseticidas utilizados pelos produtores estão perdendo a eficácia
devido à resistência dos insetos, correndo sérios riscos de serem proibidos. Assim a
busca por inseticidas naturais, menos persistentes no ambiente e nos alimentos, com
menor toxicidade a mamíferos e maior seletividade vem crescendo rapidamente (Castro
et al., 2006). Entretanto, devido ao alto custo dos inseticidas e seu efeito poluidor no
meio ambiente, causando desequilíbrio biológico, o controle desta praga através do uso
de extratos vegetais pode vir a ser uma alternativa viável de controle (Góes et al., 2003).
Dentre as várias espécies de meliáceas, Azadirachta indica A. Juss. (Meliaceae),
popularmente denominada de nim, tem sido muito estudada quanto às suas propriedades
e quanto ao seu potencial inseticida, sendo uma das mais promissoras como fonte de
inseticida botânico (Roel et al., 2000).
Segundo Martinez (2002), o nim apresenta uma série de compostos limonóides,
dentre os quais a azadiractina é o que ocorre em maior concentração e que apresenta
maior atividade tóxica aos insetos. É utilizada principalmente na forma de óleo ou de
extratos aquosos ou orgânicos.
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
24
Os frutos são a principal fonte de azadiractina, entretanto, a casca, as folhas e o
óleo das sementes também possuem essa ação (Bruneton, 1995). Embora as folhas
tenham menor quantidade de ingredientes ativos, são produzidas em abundância nas
condições brasileiras. Estudos mostraram acentuada atividade inseticida de extratos
aquosos de folhas de nim sobre lagartas de S. frugiperda (Viana & Prates, 2003). De
acordo com trabalho realizado por Salles & Rech (1999), tratamento com torta de nim
sobre fêmeas com idade indeterminada de Anastrepha fraterculus (Weid.) (Diptera:
Tephritidae) ocasionou redução geral no número médio de ovos por fêmea, em
comparação com a testemunha.
Trabalhos com a utilização do nim como planta inseticida eficiente no controle
de S. frugiperda já foram descritos na literatura (Silva, 1999; Simmonds, 2000),
principalmente com o uso de partes da planta na forma de extratos a base de solventes
(água, álcool, éter, acetato, entre outros). A maioria destes trabalhos com o nim utiliza o
óleo da semente e o pó de folhas, flores e ramos, porém trabalhos que utilizam a torta
(resíduo da semente após a extração do óleo) como inseticida ainda são pouco
explorados.
O objetivo deste trabalho foi avaliar a toxicidade de extratos aquosos de folhas e
torta da semente de nim Azadirachta indica A. Juss. (Meliaceae) em lagartas de
Spodoptera frugiperda alimentadas com folhas de milho.
2 Material e Métodos
O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Entomologia do Centro de
Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas (CECA/UFAL), em Rio Largo AL, aos 9º27’06’’Sul e 35º49’05’’ Oeste. Durante o período de condução do bioensaio
(3 a 16 de dezembro de 2008) a temperatura média foi de 25 ± 2°C, com umidade
relativa de 75 ± 5% e fotofase de 12h.
As lagartas de S. frugiperda foram oriundas de criação em laboratório a partir de
posturas coletadas em campo. Essas posturas foram colocadas em placas de Petri (5 cm
de diâmetro x 2,0 cm de altura) sobre papel filtro umedecido com água destilada. Após
a eclosão, as larvas permaneciam nestas placas, sendo alimentadas com porções de
folhas de milho (2 cm x 4 cm) da variedade BR 106 EMBRAPA provenientes de plantio
livre de inseticidas. Na fase de pupa, os insetos foram alojados em tubos de PVC (20 cm
de diâmetro x 30 cm de altura), forrados internamente com papel manteiga, aguardando
a emergência e o acasalamento de adultos. O tubo era coberto com placa de vidro e para
alimentação dos adultos foi utilizada solução de açúcar e água destilada a 10%. Apenas
os insetos oriundos da segunda geração foram usados no bioensaio.
A coleta de folhas de nim para o preparo do pó foi realizada no CECA/UFAL, em
uma planta que já havia florado por pelo menos duas vezes durante seu ciclo de vida,
garantindo a presença do princípio ativo. A planta foi identificada pelo herbário MAC
do Instituto do Meio Ambiente do Estado de Alagoas, com o registro sob o número
MAC 34904. As folhas foram secas à sombra, ao ar livre, e em seguida, em estufa a
65ºC por 48h. Posteriormente, foi triturado em moinho de facas tipo Willye, até a
obtenção de pó com baixa granulometria.
O pó da torta de nim foi fornecido pela Usina Cruangi, localizada em
Timbaúba/PE, o qual foi obtido após a secagem e prensagem das sementes para
extração do óleo. Os pós foram armazenados em frascos de vidro hermeticamente
fechados.
Na preparação dos extratos aquosos, os pós foram misturados à água destilada,
utilizando-se a proporção de 100 g de cada pó para 900 mL de água, colocando-se em
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
26
recipiente Becker, permanecendo em repouso por 24 h, homogeneizando-se após 12 h
de descanso e protegido da luz. Em seguida, a suspensão foi filtrada em peneira fina
para a obtenção do extrato aquoso (solução usada no experimento).
Para o bioensaio utilizaram-se 144 placas de Petri (5 cm de diâmetro x 2 cm de
altura), colocando-se, internamente, papel filtro umedecido com água destilada. Nessas
placas foi inoculada uma lagarta recém-eclodida (primeiro ínstar), proveniente da
criação do laboratório, sobre uma porção de folha de milho (2 cm x 4 cm),
anteriormente imersa em seus devidos tratamentos durante 2 segundos e secas sobre
papel absorvente durante 10 minutos. Sendo assim, os tratamentos utilizados foram:
extratos aquosos de folha e torta de nim com 4 concentrações (0,5%; 1,0%; 1,5% e
2,0%) com adição de água destilada e DMSO (Dimetilsulfóxido) (1%), além da
testemunha (água destilada + DMSO). O DMSO atua como solvente orgânico e facilita
a penetração e difusão dos extratos na lagarta.
As placas foram distribuídas em uma bancada e dividas em 2 tratamentos com 4
concentrações cada, incluindo-se também a testemunha. Após a implantação do
bioensaio, a substituição da fonte alimentar foi feita a cada 2 dias, sendo que as folhas
foram tratadas somente no primeiro e quinto dias.
O bioensaio foi conduzido em delineamento inteiramente casualizado com 3
tratamentos e 16 repetições por concentração, considerando cada lagarta uma repetição.
Os dados de mortalidade (concentração-resposta) foram submetidos à análise de Probit
(Proc Probit), utilizando-se o Programa SAS versão 9.0 (SAS Institute, 2002). A
mortalidade associada a cada tratamento foi corrigida utilizando-se a fórmula de Abbott
(1925), devido às causas naturais de mortalidade e, depois estimadas as CL50 das
concentrações de cada tratamento em 5 e 10 DAA (dias após a aplicação) na detecção
de toxicidade em relação a S. frugiperda. O teste utilizado para o ajuste de Probit foi o
qui-quadrado de Pearson com P>0,05.
Após a correção de mortalidade, expressa em porcentagem, realizou-se análise
de regressão (ANAREG) para avaliações feitas aos 5 e 10 DAA, também utilizando o
Programa SAS versão 9.0 (SAS Institute, 2002) e para a confecção de gráficos o
Programa Microsoft Office Excel 2003®.
Para avaliar a biometria do inseto (comprimento, largura da cabeça e peso)
realizou-se um esquema fatorial 2x2+1 somente na concentração de 2,0% com 16
repetições, onde o primeiro fator foi a época de avaliação: 5 e 10 DAA; e o segundo
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
27
fator foram os tratamentos: 1) folha de nim; 2) torta da semente de nim; 3) testemunha.
Os dados foram transformados em raiz quadrada de x+0,5 e submetidos à análise
de variância (teste F) e os tratamentos comparados pelo teste de Tukey, ao nível de 5%
de probabilidade pelo Programa Sisvar versão 5.1 (Ferreira, 2007). As medições do
comprimento e largura da cabeça da lagarta foram feitas com o auxílio de um
paquímetro e a medição do peso com uma balança analítica.
3 Resultados e Discussão
As curvas de concentração-mortalidade não apresentaram coeficientes angulares
com valores aproximados entre os extratos aquosos de partes vegetativas de nim (Tabela
1), demonstrando que as lagartas de S. frugiperda não responderam de forma
homogênea para cada inseticida aplicado, e isto, ocorreu tanto aos 5 DAA como para os
10 DAA. Em geral, as curvas de concentração-mortalidade do extrato aquoso com folha
de nim foram as que apresentaram a maior inclinação entre os inseticidas testados.
Os valores estimados da CL50, através da análise de Probit aos 5 DAA para os
extratos aquosos de folha de nim e da torta de nim evidenciaram que lagartas de S.
frugiperda são mais suscetíveis ao extrato aquoso da torta de nim do que o extrato
aquoso da folha de nim. Isto pode ser atribuído ao maior teor de azadiractina,
considerado o mais potente dos limonóides, ou aos tetranortriterpenóides com atividade
tóxica a artrópodes, pois 90% da azadiractina fica concentrada na torta de nim após
prensagem das sementes (Brechelt & Fernández, 1995). Contudo, menor valor da CL50
indica maior toxidez e, conseqüentemente, menor quantidade do extrato para matar 50%
dos indivíduos.
Tabela 1: Dados de inclinação ± EP das curvas de concentração-mortalidade CL50, X2 ,
probabilidade dos extratos aquosos de Azadirachta indica (5 e 10 DAA) em lagartas de
Spodoptera frugiperda, Rio Largo/AL, dezembro de 2008*.
Extrato
Aquoso
Folha
Torta
Folha
Torta
*
DAA
5
10
1
CL50 (IC95%)3
X2
P4
0,38 (0,19 – 1,75)
1,53
0,46
1,61 ± 0,78
0,31 (0,10 – 4,62)
0,73
0,69
16
2,33 ± 0,83
0,26 (0,11 – 0,73)
0,79
0,67
16
1,64 ± 0,76
0,25 (0,05 – 2,45)
1,76
0,41
2
GL
n
Inclinação ± EP
3
16
2,03 ± 0,84
3
16
3
3
(g.L-1)
EP: Erro-padrão; CL: Concentração letal; X2 : Qui-quadrado; DAA: Dias após aplicação.
GL: Graus de liberdade.
2
n: Número de insetos utilizados no teste.
3
IC: Intervalo de confiança.
4
P: Probabilidade>0,05.
1
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
29
A diferença observada na inclinação da curva de concentração-mortalidade entre
os inseticidas utilizados deveu-se, ao fato de que nas maiores concentrações do
tratamento com torta de nim (1,5 e 2,0%) (X2=4,28; GL=3; P=0,0385), tenderam a
estabilidade na mortalidade das larvas, enquanto que no tratamento com folha de nim
(X2=5,72; GL=3; P=0,0167) a tendência era de um acréscimo na mortalidade,
mostrando que pequenas variações na concentração do inseticida com folha de nim
ocasionaram maiores variações na mortalidade.
Já os valores estimados de CL50, através da análise de Probit acumulada aos 10
DAA para os extratos aquosos de folha de nim e da torta de nim mostraram que as
aplicações acumuladas dos inseticidas precisaram de menores concentrações (Tabela 1).
Esses valores de CL50 podem ser reduzidos, devido à aplicação acumulada de inseticida
nos mesmos insetos.
Além disso, observou-se neste bioensaio, o efeito insetistático nas lagartas de S.
frugiperda, pois muitas delas apresentaram suas exúvias na parte terminal do corpo,
sem conseguirem liberá-las totalmente, e isto foi verificado nos dois tratamentos à base
de nim (Figura 1). Esse efeito do nim sobre o inseto foi descrito por Mordue & Nisbet
(2000) como deterrente de alimentação, interferindo principalmente na fisiologia da
ecdise e no processo celular, podendo resultar na morte do inseto.
Na verificação do efeito dos extratos aquosos de nim por épocas de avaliação,
constatou-se que aos 5 DAA não houve diferença significativa entre os tratamentos nos
três parâmetros biométricos avaliados em relação ao inseto (comprimento das lagartas,
largura da cabeça e peso) (Tabela 2). De acordo com trabalho realizado por Oliveira et
al. (2007), na primeira avaliação feita 3 DAA de extratos aquosos de nim, não foram
observadas diferenças significativas entre as porcentagens de plantas atacadas por S.
frugiperda, demonstrando que todos os tratamentos estavam iguais entre si e entre a
testemunha.
Figura 1: Lagarta de S. frugiperda apresentando a exúvia presa à parte terminal do
corpo. Rio Largo/AL, dezembro de 2008.
30
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
Tabela 2: Avaliação de extratos aquosos de Azadirachta indica sobre lagartas de
Spodoptera frugiperda em duas épocas de avaliação, Rio Largo/AL, dezembro de 2008.
Tratamentos
5 DAA2
10 DAA1,2
CL3 (cm)
LC4 (mm)
Peso (mg)
CL (cm)
LC (mm)
Peso (mg)
Torta
0,3000 A
0,0664 A
0,0011 A
1,1312 B
0,1344aB
0,0433aB
Folha
0,2875 A
0,0590 A
0,0013 A
1,2125 B
0,1266abB
0,0554abB
Testemunha
0,4500 A
0,0924 A
0,0021 A
1,4062 B
0,1761bB
0,0768bB
ns
ns
ns
ns
F
3,23
2,49
0,28
2,16
3,52*
4,25*
Média Geral
0,3458A
0,0726A
0,0015A
1,2500B
0,1457B
0,0585B
CV (%)
21,55
23,00
48,02
-
-
-
1
DAA: Dias após aplicação dos inseticidas.
Médias seguidas por letras distintas, minúscula na coluna e maiúscula na linha, diferem
significativamente entre si pelo teste de Tukey em nível de 5% de significância.
3
CL: Comprimento da lagarta.
4
LC: Largura da cabeça.
2
Na segunda época de avaliação, que foi aos 10 DAA com o acúmulo de uma
aplicação, houve diferença significativa somente nos parâmetros largura da cabeça e
peso das lagartas, sendo que o extrato de torta de nim diferiu da testemunha e, o extrato
de folha de nim foi semelhante aos dois tratamentos. Oliveira et al. (2007), obtiveram
resultados semelhantes com o uso de extrato aquoso de nim a 5% em relação à
mortalidade de lagartas de S. frugiperda.
Para as varáveis analisadas como o comprimento da lagarta, largura da cabeça e
peso do inseto, houve interação significativa entre as épocas de avaliação e os
tratamentos testados, ou seja, a toxidez dos extratos afetou a biometria das lagartas de S.
frugiperda aos 5 DAA diferente dos 10 DAA. Esta diferença pode ser notada na largura
da cabeça e no peso do inseto aos 10 DAA. Silva (1999) demonstrou que a eficiência
dos inseticidas, no controle de S. frugiperda, em milho, varia em função da época, do
modo de aplicação e do volume de calda aplicado, sendo menor em épocas tardias. No
geral, verificou-se diferença significativa entre os tratamentos somente quando
comparados com a testemunha, sendo que os dois extratos aquosos não diferiram entre
si.
No período de avaliação considerado, houve variação significativa na
porcentagem de mortalidade somente nas concentrações dos dois extratos aquosos
utilizados. A testemunha praticamente não alterou (Tabela 3).
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
31
Tabela 3: Porcentagem da mortalidade de lagartas de Spodoptera frugiperda após
aplicação dos extratos aquosos de Azadirachta indica, Rio Largo/AL, dezembro de
2008.
Mortalidade (%)
Mortalidade (%)
5 DAA
10 DAA
-
6,25
6,67
0,5
6,67
6,67
1,0
6,67
13,33
1,5
26,67
40,00
2,0
46,67
53,33
0,5
6,67
13,33
1,0
33,33
40,00
1,5
40,00
46,67
2,0
40,00
46,67
Tratamentos
Concentração (%)
Testemunha
Folha
Torta
Para avaliação do extrato aquoso com folha de nim aos 5 DAA, da testemunha
até a concentração de 1,0% houve uma mortalidade máxima de 6,67% (F1,3=11,16;
P<0,0444) (Figura 2), sendo a mesma considerada muito baixa para este tratamento,
apesar das baixas concentrações utilizadas, pois as lagartas durante este período
(primeiros ínstares) possuem baixa resistência aos inseticidas aplicados, pois Viana &
Prates (2005) observaram, ainda, que lagartas recém-eclodidas alimentadas com folhas
de milho tratadas com extrato de nim por poucos dias apresentaram alta mortalidade.
Figura 2: Mortalidade de lagartas de Spodoptera frugiperda tratadas aos 5 DAA com
extrato aquoso de nim, Rio Largo/AL, dezembro de 2008.
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
32
A partir da concentração de 1,0% houve um aumento de 4 vezes na mortalidade,
passando de 6,67% para 26,67% na concentração seguinte. Viana & Prates (2003),
utilizando extrato aquoso de folhas de nim 1%, constataram que a mortalidade de
lagartas recém-eclodidas foi baixa nos primeiros três dias após o início da alimentação e
alta aos dez dias.
Para avaliação do extrato aquoso com torta de nim aos 5 DAA houve baixa
mortalidade 6,67% (F1,3= 16,06; P<0,0279) até a concentração de 0,5%, ou seja, ocorreu
uma antecipação de concentração no acréscimo de mortalidade, quando comparado com
o extrato aquoso de folha de nim, que somente demonstrou acréscimos significativos
após a concentração de 1%. Entre as duas concentrações (0,5 e 1,0%) houve um
acréscimo de 5 vezes na mortalidade. Também foi observada uma correlação positiva
entre o aumento das concentrações e a mortalidade das lagartas por meio da linearidade
da regressão nos dois tratamentos testados (Figura 2).
Aos 10 DAA com extrato aquoso com folha de nim, a avaliação da mortalidade
das lagartas apresentou as mesmas características da avaliação feita aos 5 DAA, sendo
que a mortalidade na concentração de 1% foi de 13,33% (F1,3=21,22; P<0,0192), duas
vezes maior que a concentração a 0,5% nesta época de avaliação, além da correlação
positiva pelo modelo linear entre a mortalidade e as concentrações utilizadas
(y=24,437x+0,01; R2=0,8745) (Figura 3).
Figura 3: Mortalidade de lagartas de Spodoptera frugiperda aos 10 DAA com extrato
aquoso de nim, Rio Largo/AL, dezembro de 2008.
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
33
Apesar da folha de milho ter sido imersa em solução com inseticida botânico por
dois segundos, acredita-se que os insetos ainda conseguiam encontrar espaços livres do
extrato, permitindo estas variações na mortalidade durante os primeiros ínstares, pois a
lagarta ainda conseguia se alimentar destes espaços, conferindo-lhe menor
suscetibilidade.
Para avaliação do extrato aquoso com torta de nim aos 10 DAA houve
mortalidade de 13,33% (F1,3=20,16; P<0,0206) na concentração de 0,5%, sendo o dobro
da mortalidade do extrato aquoso com folha de nim quando comparado com a mesma
concentração e mesmo período de avaliação. Na concentração de 2,0%, o extrato com
torta de nim obteve mortalidade de 46,67%, sendo menor do que o tratamento com
folha de nim, que alcançou uma mortalidade de 53,33% com esta mesma concentração e
mesmo período de avaliação. A correlação positiva entre a mortalidade e as diferentes
concentrações também foi verificada para este tratamento nos 10 DAA.
Aos 10 DAA houve uma tendência para a estabilidade na mortalidade das
lagartas e em seguida um decréscimo da mesma. De acordo com Martinez & Emden
(2001), esse processo irá requerer algum tempo para ser desencadeado e atuar sobre o
inseto, resultando em baixa mortalidade no final da fase larval e alta mortalidade na fase
de pupa.
4 Conclusões
1. Lagartas de S. frugiperda, em laboratório, são mais suscetíveis ao extrato aquoso
com torta de nim do que ao extrato aquoso com folha de nim, em relação à mortalidade.
2. Há diferença entre as duas épocas de avaliação e os extratos aquosos testados não
diferem entre si em relação ao comprimento das lagartas, largura da cabeça e peso.
3. O extrato aquoso com torta de nim na concentração de 2,0% tende a estabilidade
da mortalidade, enquanto que o extrato aquoso com a folha de nim tem-se o aumento da
mesma.
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Capítulo II
Atividade inseticida de extratos aquosos de nim em diferentes vias de aplicação
sobre a lagarta-do-cartucho
Resumo – O objetivo foi avaliar em telado o efeito de folha e torta de nim, em três vias
de aplicação sobre Spodoptera frugiperda, em plantas de milho. Os tratamentos foram:
1) folha de nim em aplicações: foliar-pó, foliar-líquida e solo; 2) torta de nim em
aplicações: foliar-pó, foliar-líquida e solo; 3) testemunha. Realizou-se a análise de
variância, sendo as médias comparadas pelo teste de Tukey e Kruskal-Wallis
(comparações com teste S-N-K) a 5% de significância. Torta de nim na via foliarlíquida foi o tratamento que obteve a menor nota de danos com 2,08 na escala de notas,
não conseguindo diferir do extrato aquoso da torta na via solo. Na análise da área foliar
após o consumo da folha +3, observou-se que houve diferença significativa entre os
tratamentos com torta na via foliar-líquida (93,86 cm2) em relação ao tratamento
testemunha (66,46 cm2). O extrato com torta obteve os menores comprimentos larvais.
Em relação à largura da cabeça os melhores tratamentos foram: torta na via foliar-pó e
líquida; e folha nas três vias testadas. Inseticida natural à base de torta foi o mais
eficiente no controle de lagartas de S. frugiperda. A via foliar em pó foi a menos
eficiente.
Termos para indexação: Zea mays, Spodoptera frugiperda, Meliaceae, torta.
Insecticidal activity of aqueous extracts of neem in different way of application on the fall
armyworm
Abstract – The objective was to evaluate in greenhouse the effect of neem leaf and pie,
in three ways of application on Spodoptera frugiperda, in maize plants. The treatments
were: 1) neem leaf in applications: leaf-powder, leaf-liquid and soil; 2) neem pie in
applications: leaf-dust, leaf-liquid and systemic; 3) control. The variance analysis was
carried out, the measurements being compared by the Tukey and Kruskal-Wallis test
(comparisons with test S-N-K) at 5% of significance. Neem pie in the leaf-liquid way
was the treatment that got the lowest note of damages with 2.08 in the note scale, unable
to differ from the aqueous extract of the pie in the soil way. In the analysis of the leaf
area, after the consumption of the +3 leaf, there was observed that a significant
difference between the treatments with pie in the leaf-liquid way (93.86 cm2) in relation
to the control treatment (66.46 cm2). The extract with pie obtained the smallest larval
length. In relation to the width of the head, the best treatments were: pie in the way leafdust and liquid; e leaf in the three tested ways. Natural insecticide based on pie was the
most efficient in the control of S. frugiperda worm. The leaf way in powder was the
least efficient.
Index terms: Zea mays, Spodoptera frugiperda, Meliaceae, pie.
1 Introdução
A lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda (J. E. Smith, 1797) (Lepidoptera:
Noctuidae) é considerada a praga mais importante de milho no Brasil. O seu ataque
ocorre em todos os estádios de desenvolvimento do milho, podendo as perdas reduzir a
produção em até 38%. O controle dessa lagarta tem sido realizado com inseticidas
sintéticos, geralmente de custo elevado, com alta toxicidade e contaminação ambiental
(Viana et al., 2006).
A limitação do uso de inseticidas na agricultura é um dos fatores decisivos para
reduzir a contaminação do meio ambiente, dos alimentos e do homem. Além disso, o
efeito residual e a não seletividade aos inimigos naturais têm inviabilizado a utilização
de alguns inseticidas (Almeida et al., 2003).
Algumas vantagens do uso de extratos vegetais, como a menor probabilidade de
desenvolvimento de resistência pelos insetos, compatibilidade com outros métodos de
controle e menor toxicidade a mamíferos, são apontadas por Gallo et al. (2002). Porém,
os estudos feitos até o momento, apesar dos resultados promissores, apontam para uma
série de limitações ao uso de extratos vegetais em programas de controle de pragas
agrícolas. Por isso, certamente, muitos outros estudos ainda devem ser desenvolvidos
tanto em laboratório quanto em campo (Costa et al., 2004).
Nas pesquisas com extratos vegetais, o nim Azadirachta indica A. Juss.
(Meliaceae) tem sido utilizado como padrão de controle, pois seus efeitos são bastante
conhecidos e já existem formulações comerciais aplicadas na forma convencional para o
controle de insetos. Nos estudos de laboratório, os extratos vegetais têm sido aplicados
de forma tópica sobre insetos (Raguraman & Singh, 1998), misturada às dietas
(Raguraman & Singh, 1999; Rodríguez & Vendramim, 1996) ou, então, posturas (Boff
& Almeida, 1996) e em alimentos que são imersos por determinados períodos nos
extratos (Roel et al., 2000).
Góes et al. (2003), testando diferentes extratos vegetais no controle de S.
frugiperda
constataram
que
houve
diferença
entre
as
médias
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
41
de mortalidade, e o extrato de nim A. indica foi mais eficiente no controle desse insetopraga.
Grande parte dos extratos utilizados nas pesquisas é obtida a partir da secagem
de diferentes estruturas vegetais, como folhas, flores, frutos, raízes, ramos e sementes.
Além disso, devem ser feitos estudos sobre a composição de diferentes partes e resíduos
vegetais, bem como sobre o cultivo de plantas inseticidas (Costa et al., 2004). Um dos
resíduos mais promissores pode ser a torta de nim oriunda da extração do óleo da
semente por indústrias que produzem este óleo como inseticida.
Os inseticidas com ação de contato, normalmente usados para o controle de S.
frugiperda, muitas vezes não conseguem atingir o inseto, devido ao seu comportamento,
principalmente nos últimos ínstares larvais, onde o mesmo consegue se esconder entre
as folhas jovens dentro do cartucho da planta. Outros fatores além destes são descritos
por Palumbo & Kerns (1994) em que este fato está na dependência da arquitetura da
planta e da atividade química do inseticida. A aplicação de produtos via solo com ação
sistêmica tem grande vantagem pela translocação do composto ativo para todas as partes
da planta, além de serem seletivos aos inimigos naturais.
O efeito sistêmico da torta, extratos da semente de nim e de formulações à base
de azadiractina, aplicados ao solo para o controle de pragas foi relatado em outros
estudos (Gonçalves et al., 2003; Souza, 2004). O comportamento alimentar e picadas de
prova dos pulgões Rhopalosiphum padi (Linnaues, 1758), Sitobion avenae (Fabricius,
1775) e Myzus persicae (Sulzer, 1776) (Hemiptera: Aphididae) foram afetados pela
azadiractina em aplicações sistêmicas (West & Mordue (Luntz), 1992). Esse efeito vem
sendo estudado em insetos sugadores de seiva, necessitando de pesquisas que avaliem o
efeito sistêmico da torta de nim em insetos desfolhadores como a lagarta-do-cartucho.
Sendo assim, este trabalho teve o objetivo de avaliar o efeito de folha e torta de
nim, em três vias diferentes de aplicação, no controle de S. frugiperda, em plantas de
milho.
2 Material e Métodos
O trabalho foi desenvolvido no telado do Laboratório de Entomologia do Centro
de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas (CECA/UFAL), em Rio
Largo - AL, aos 9º27’06’’Sul e 35º49’05’’ Oeste. Durante o período de condução do
bioensaio (21 de novembro a 20 de dezembro de 2008) a temperatura média foi de 34 ±
2°C, com umidade relativa de 66 ± 5% e fotofase de 12h.
O milho foi cultivado em copos reutilizáveis confeccionados a partir de garrafas
PET descartáveis com capacidade para 700 mL, preenchendo-se com substrato numa
mistura à base de torta de filtro de cana-de-açúcar com bagaço de coco triturado na
proporção de 2:1. Utilizou-se a variedade BR 106 da EMBRAPA com duas sementes
por copo. O desbaste foi feito 15 dias após a semeadura. Aos 18 dias após a semeadura
realizou-se a infestação com lagartas de 1º instar (24 h após eclosão) nas plantas de
milho, distribuindo-se duas lagartas por planta. As plantas eram irrigadas diariamente
com 100mL de água por copo. As lagartas de S. frugiperda foram oriundas de criação
em laboratório a partir de posturas coletadas em campo.
A coleta de folhas de nim foi realizada no CECA/UFAL, em uma planta, que já
havia florado por pelo menos duas vezes durante seu ciclo de vida, garantindo a
presença do princípio ativo. A planta foi identificada pelo herbário MAC do Instituto do
Meio Ambiente do Estado de Alagoas, com o registro sob o número MAC 34904. As
folhas foram secas à sombra, ao ar livre, e em seguida, em estufa a 65ºC por 48 h.
Posteriormente, foram triturados em moinho de facas tipo Willye, até a obtenção de pó
com baixa granulometria.
A torta de nim foi um material produzido e fornecido pela Usina Cruangi,
localizada em Timbaúba/PE, o qual foi obtido após a secagem e prensagem das
sementes para extração do óleo. Os pós foram armazenados em frascos de vidro
hermeticamente fechados até o momento da aplicação.
Sendo assim, os inseticidas utilizados foram: 1) folha de nim; 2) torta de nim; 3)
testemunha (ausência de tratamento). Os tratamentos com nim foram aplicados na
concentração de 2% e em três vias: a) foliar-pó; b) foliar-líquida; e c) solo,
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
43
totalizando 7 tratamentos. Para a via foliar na forma de pó foi utilizado o gesso como
material inerte e na via foliar líquida e na via solo, usou-se água destilada com adição de
DMSO (dimetilsulfóxido) (1%). O DMSO atua como solvente orgânico e facilita a
penetração e difusão dos extratos na lagarta.
Na preparação dos extratos, o material foi misturado à água destilada, utilizandose a proporção de 100 g de pó da folha de nim para 900 mL de água, colocando-se em
recipiente Becker, permanecendo em repouso por 24 h, homogeneizando-se após 12 h
de descanso e protegido da luz. Em seguida, a suspensão foi filtrada com papel filtro
para a obtenção do extrato aquoso (solução estoque). Para obter o extrato aquoso com
torta de nim utilizou-se a mesma preparação.
As aplicações dos inseticidas realizaram-se 24 h após a infestação das lagartas de
S. frugiperda. A aplicação via pó foi feita com o auxílio de uma peneira caseira,
espalhando-se 100 g da mistura sobre toda a parte aérea de cada planta dos tratamentos.
Na via líquida, utilizou-se um atomizador caseiro num volume de 100 mL, cobrindo-se
as folhas e caule de todas as plantas dos tratamentos. Para a via solo usou-se um Becker
com capacidade para 100 mL, espalhando-se um volume de produto de 60 mL sobre o
substrato de cada planta.
As avaliações foram feitas aos 5 DAA (dias após a aplicação) através de uma
escala de notas (0 a 5), considerando a nota 0 ausência de dano na planta e a nota 5
destruição total do cartucho (Araújo, 2004), da área foliar após o consumo das lagartas
(apenas a folha +3) por meio do medidor de área modelo LI-3100C AREA METER LICOR® , além do comprimento (cm) e da largura da cabeça (mm) do inseto.
O bioensaio foi conduzido em delineamento inteiramente casualizado com 7
tratamentos e 25 repetições para escala de notas e área foliar após o consumo e número
diferente de repetições (mínimo 5) para os dados de biometria do inseto. Os dados
obtidos foram submetidos à análise de variância, sendo as médias comparadas pelo teste
de Tukey a 5% de significância, através do Programa SAS versão 9.0 (SAS Institute,
2002). As variáveis que não apresentaram variâncias homogêneas foram submetidas ao
teste de Kruskal-Wallis com comparações de postos médios pelo teste S-N-K com 5%
de significância, utilizando-se o Programa BioEstat 5.0 (Ayres et al., 2007).
3 Resultados e Discussão
Utilizando-se a escala de notas de danos constatou-se que, houve diferença
significativa entre os extratos aplicados (H6,164=29,12; P=0,0001), sendo que o extrato
aquoso com torta de nim na via foliar-líquida foi o que atingiu a menor nota de danos
na escala de notas, mas não conseguiu diferir do extrato aquoso com torta de nim na via
solo (Tabela 1).
De acordo com experimento conduzido por Salles & Rech (1999), tratamentos
com torta de nim afetaram a produção de ovos, eclosão de larvas e, formação qualiquantitativa das pupárias de Anastrepha fraterculus (Wied.) (Diptera:Tephritidae). Os
resultados do presente trabalho indicam que extratos utilizando torta de nim produzem
efeito inseticida também contra insetos lepidópteros, já que os mesmos são os mais
sensíveis às substâncias derivadas de nim (Schmutterer, 1990).
Tabela 1: Avaliação de inseticidas naturais à base de nim sobre lagartas de Spodoptera
frugiperda, através de nota da escala de danos e da área foliar após o consumo da folha
+3, Rio Largo/AL, dezembro de 2008.
Tratamento
Torta (foliar-líquida)
Torta (solo)
Folha (foliar-pó)
Torta (foliar-pó)
Folha (solo)
Folha (foliar-líquida)
Testemunha
CV (%)
1
Nota da escala de danos
IC (95%)1,2
2,08 (1,8734–2,2968) a
2,11 (1,8593–2,3785) ab
2,44 (2,1685–2,7167) b
2,44 (2,1454–2,9624) b
2,55 (2,1605–2,7343) b
2,62 (2,3651–2,8771) bc
3,02 (2,7456–3,3046) c
23,21
Área foliar após consumo
(média ± EP)1,3(cm2)
93,86 ± 3,77 b
88,29 ± 5,21 ab
73,59 ± 5,32 ab
80,35 ± 5,86 ab
72,29 ± 4,68 ab
76,75 ± 6,02 ab
66,46 ± 5,43 a
33,23
IC: Intervalo de confiança; EP: Erro-padrão.
Médias seguidas por letras distintas na coluna, diferem significativamente entre si pelo teste de KruskalWallis em nível de 5% de significância com comparações de postos médios feitos pelo teste S-N-K em
nível de 5% de probabilidade.
3
Médias seguidas por letras distintas na coluna, diferem significativamente entre si pelo teste de Tukey
em nível de 5% de significância.
2
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
45
O inseticida com torta de nim na via foliar-líquida e via solo atingiram notas
que, representam menores danos às plantas do que o mesmo inseticida na via foliar
submetida na forma de pó. O uso do pó como forma de aplicação foliar de inseticidas
naturais sobre plantas de milho, parece ser inviável, pois após a aplicação, a umidade
relativa do ar umedece a folha, principalmente durante o período noturno e,
conseqüentemente o pó, formando pequenos “pellets”, diminuindo sua aderência na
folha, permitindo com que a lagarta se alimente com menor contato com o inseticida.
A testemunha diferiu estatisticamente dos demais tratamentos utilizados, estando
a mesma com a maior nota. Os inseticidas à base de folha de nim tiveram colocações
intermediárias, não conseguindo se destacar em relação aos demais. Vale ressaltar que,
a grande vantagem de utilizar as folhas de nim em relação aos produtos de sementes
dessa planta está na facilidade de obter grandes quantidades de folhas para o preparo de
extrato aquoso, tendo em vista que a produção de sementes em algumas regiões do
Brasil é, muitas vezes, reduzida e o processamento para obtenção do óleo na
propriedade é demorado, dificultando seu uso pelo agricultor (Viana & Prates, 2003).
Na análise da área foliar de plantas de milho após o consumo da folha +3 pelas
lagartas, observou-se que houve diferença significativa (F6,164=3,32; P=0,0041) entre os
tratamentos torta de nim na via foliar-líquida (93,86cm2) e testemunha (66,46cm2). Os
demais tratamentos não conseguiram diferir entre si, inclusive os que foram à base de
folha de nim, apresentando-se semelhantes aos tratamentos com torta na via foliarlíquida e testemunha. Essa semelhança entre os inseticidas pode ser explicada em
função do crescimento natural da área foliar da planta, já que lagartas desta espécie
podem se locomover com facilidade entre as folhas.
Embora o efeito do uso do nim como inseticida seja comprovado, ainda não se
sabe ao certo o comportamento de lagartas de S. frugiperda após o contato ou ingestão
com esse inseticida, pois Viana & Prates (2005) questionaram que lagartas alimentadas
por certo período com partes de plantas tratadas com extrato de nim e, em seguida, com
partes não tratadas, devido principalmente à falha na pulverização ou crescimento
natural da planta, possam recompor o desenvolvimento normal e acarretar danos à
planta.
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
46
Tabela 2: Avaliação de inseticidas naturais à base de nim sobre lagartas de Spodoptera
frugiperda, através do comprimento das lagartas e da largura da cabeça, Rio Largo/AL,
dezembro de 2008.
Tratamento
Torta (solo)
Torta (foliar-líquida)
Torta (foliar-pó)
Folha (foliar-líquida)
Folha (foliar-pó)
Folha (solo)
Testemunha
CV (%)
Comprimento das lagartas (cm)
IC (95%)1,2
1,70 (1,2882 – 2,1118) a
1,75 (1,4998 – 2,3502) ab
1,87 (1,4987 – 2,2441) ab
2,11 (1,8102 – 2,4184) abc
2,16 (1,9531 – 2,3719) bc
2,25 (2,0775 – 2,4225) c
2,30 (2,0517 – 2,5483) c
16,69
Largura da Cabeça (mm)
IC(95%)
0,2790 (0,2795 – 0,2885) bc
0,2179 (0,1687 – 0,2671) a
0,2075 (0,1506 – 0,2644) a
0,2470 (0,1713 – 0,3227) ab
0,2364 (0,2308 – 0,2420) ab
0,2323 (0,2789 – 0,2791) a
0,2840 (0,1861 – 0,2785) c
19,47
1
IC: Intervalo de confiança.
Médias seguidas por letras distintas na coluna, diferem significativamente entre si pelo teste de KruskalWallis em nível de 5% de significância com comparações postos médios feitos pelo teste S-N-K em nível
de 5% de probabilidade.
2
Na análise do comprimento das lagartas constatou-se que, houve diferença
significativa entre os tratamentos utilizados (H6,14=16,93; P=0,0304), estando o
inseticida com torta de nim com menores comprimentos (Tabela 2). Esse inseticida na
via solo conseguiu diferir dos tratamentos com folha de nim na via foliar na forma de pó
e na via solo e do tratamento testemunha em até 0,50 cm no comprimento do corpo,
provocando retardamento da fase larval. O inseticida à base da torta de nim não
apresentou diferença significativa entre as vias testadas, porém pode-se verificar que na
via solo as lagartas obtiveram o menor comprimento.
Já em relação à largura da cabeça também se pode observar que houve diferença
significativa entre os inseticidas aplicados (H6,14=17,52; P=0,0075), tendo como
melhores tratamentos a torta de nim nas vias em forma de pó e líquida e, em seguida, os
tratamentos com folha nas três vias de aplicação. A testemunha não conseguiu diferir
significativamente do tratamento com torta na via solo. Segundo Gonçalves & Bleicher
(2006), pesquisas sobre a ação de derivados desta meliácea no controle de insetos têm
mostrado resultados muito variáveis. Isto se deve ao fato da influência de uma série de
fatores, pois de acordo com Martinez (2002), a espécie de planta e tipo de estrutura na
planta onde se aplica o composto pode afetar a sua ação sistêmica.
Silva, M. S. 2009. Atividade inseticida da folha e da torta da semente de nim Azadirachta indica...
47
Neste experimento pode-se observar que, muitas lagartas capturadas do
tratamento com torta na via solo apresentaram o corpo de comprimento curto e com
diâmetro acima do normal, além da largura da cabeça que alcançou uma média superior
aos demais tratamentos testados. Martinez & Emden (2001) alimentando lagartas de
Spodoptera littoralis (Boisduval, 1833) (Lepidoptera: Noctuidae) com dieta artificial
contendo azadiractina observou redução da taxa de crescimento relativo, além de
anormalidades morfológicas e mortalidade.
O tempo de ação dos compostos derivados de nim nos inseticidas testados e suas
respectivas vias durante a execução deste trabalho, não permitiram verificar uma ação
direta e altamente eficiente no controle de S. frugiperda, considerando o curto período
para que isto ocorresse. Porém, sabe-se que o nim atua de forma indireta no seu
desenvolvimento como, por exemplo, no processo de ecdise, impedindo que o inseto
atinja as outras fases de seu ciclo biológico. Além disso, Roel et al. (2000) trabalhando
com Trichilia pallida Swartz (Meliaceae) concluiu que lagartas de S. frugiperda desde a
eclosão alimentadas com folhas de milho tratadas com T. pallida são mais afetadas do
que as alimentadas alguns dias após.
4 Conclusões
1. O inseticida natural à base de torta de nim é mais eficiente do que o inseticida à
base de nim-folha no controle de lagarta de S. frugiperda, em telado.
2. Há diferença entre as três vias de aplicação testadas (foliar-pó, foliar-líquida e
solo) em relação ao controle de S. frugiperda, sobressaindo-se a via foliar-líquida.
3. A via foliar em forma de pó é a menos eficiente no controle de S. frugiperda.
Porém, estudos mais avançados sobre o uso destas vias em relação ao nim, ainda devem
ser exploradas.
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Anexos
