Carolina Ferreira de Oliveira
Detecção de anticorpos anti-Trypanosoma cruzi em cães domésticos domiciliados e de abrigo no município de Arapiraca, Alagoas, Brasil
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA ANIMAL
CAROLINA FERREIRA DE OLIVEIRA
DETECÇÃO DE ANTICORPOS ANTI-Trypanosoma cruzi EM CÃES DOMÉSTICOS
DOMICILIADOS E DE ABRIGO NO MUNICÍPIO DE ARAPIRACA, ALAGOAS,
BRASIL
ALAGOAS
2025
CAROLINA FERREIRA DE OLIVEIRA
DETECÇÃO DE ANTICORPOS ANTI-Trypanosoma cruzi EM CÃES DOMÉSTICOS
DOMICILIADOS E DE ABRIGO NO MUNICÍPIO DE ARAPIRACA, ALAGOAS,
BRASIL
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Ciência Animal da Universidade Federal de Alagoas,
como requisito parcial para a obtenção do grau de
Mestre em Ciência Animal.
Orientador: Prof. Dr. Jonatas Campos de Almeida.
ALAGOAS
2025
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Polo Viçosa
Bibliotecário Responsável: Stefano João dos santos
O48d
Oliveira, Carolina Ferreira de
Detecção de anticorpos Anti-Trypanosoma cruzi em cães domésticos
domiciliados e de abrigo no município de Arapiraca, Alagoas, Brasil /
Carolina Ferreira de Oliveira - 2025.
61f. ; il.
Dissertação (Mestrado em Ciência Animal) - Universidade Federal de
Alagoas, Campus Ceca, Polo Viçosa, 2025.
Orientação: Prof. Dr. Jonatas Campos de Almeida.
Inclui bibliografia.
1. Cães. 2. Alagoas . I. Título
CDU: 636.1
FOLHA DE APROVAÇÃO
AUTOR: CAROLINA FERREIRA DE OLIVEIRA
DETECÇÃO DE ANTICORPOS ANTI-Trypanosoma cruzi EM CÃES DOMÉSTICOS
DOMICILIADOS E DE ABRIGO NO MUNICÍPIO DE ARAPIRACA, ALAGOAS,
BRASIL
Dissertação submetida ao corpo docente do Programa de
Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade
Federal de Alagoas e aprovada em 27/02/2025
BANCA EXAMINADORA
_____________________________________________
Dr. Jonatas Campos de Almeida
Universidade Federal de Alagoas, UFAL
UFG
(Orientador)
_____________________________________________
Dr. Diogo Ribeiro Câmara
Universidade Federal de Alagoas, UFAL
_____________________________________________
Dra. Simone Baldini Lucheis
Universidade Estadual Paulista, UNESP-Botucatu
DEDICATÓRIA
Aos meus pais que me dedicam a vida. É com grande honra que
vos dedico o meu maior projeto, até o momento.
A todas as pessoas que atuam em prol da causa animal,
especialmente nos centros de resgate e abrigos.
A todos os animais, principalmente os que estão em
situação de vulnerabilidade.
AGRADECIMENTOS
Ao Criador e ao Universo, pelos sinais que me guiam e inspiram nesta jornada. Aos
meus pais e irmãos, cujo apoio e incentivo foram essenciais para que eu mantivesse o foco e a
motivação.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Jonatas Campos de Almeida, por me acolher, orientar,
investir seu tempo, conhecimento e, principalmente, acreditar no meu potencial. Mais do que
um orientador acadêmico, o senhor se tornou um verdadeiro amigo, sempre disposto a me ouvir
e eu serei eternamente grata por isso.
À Profa. Dra. Márcia Kikuyo Notomi, por todo o apoio que me ofereceu ao longo desse
processo. Desde a orientação inicial até a ajuda com as questões burocráticas.
Aos meus docentes, por compartilharem seu conhecimento e experiência de forma tão
generosa e inspiradora.
Aos meus colegas de mestrado, especialmente Alan Correia e Kátia Lima. À minha
amiga, Keityane Oliveira, que esteve ao meu lado desde a graduação e, agora, no mestrado. Seu
apoio continua sendo inestimável.
Aos graduandos Francielly Maria, Jussara Nayanne e Pedro Levi, por terem me
auxiliado no preparo das amostras biológicas, viabilizando a execução das atividades do projeto
de pesquisa.
Ao Hospital Veterinário “Pet Aki” por ter cedido as amostras biológicas utilizadas nesse
projeto, especialmente ao médico veterinário e responsável técnico Dr. Daniel Acioli Tenório,
por ter aceitado participar do projeto. Agradeço também, a patologista Kelmanny Sousa e a
auxiliar de laboratório Allana Cristine, por terem disponibilizado tempo para ajudar na
organização das amostras.
À Associação Humanitária de Proteção aos Animais de Rua, especialmente a Dona
Tânia, que me atendeu de braços abertos e que foram extremamente importantes para a
realização deste trabalho.
À Dona Marilene que se dedica em melhorar a vida de diversos animais em situação de
vulnerabilidade sem nenhuma ajuda financeira e que também foi imprescindível para o
desenvolvimento desta pesquisa. Espero que este trabalho ajude na promoção da medicina de
abrigos e no bem-estar de todos os animais envolvidos nessa área.
Ao Laboratório de Diagnóstico de Zoonoses do Departamento de Produção Animal e
Medicina Veterinária Preventiva, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da
Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), Botucatu, especialmente a Profa. Dra. Simone
Baldini Lucheis e a residente Gabriela de Lima Rodrigues Pinto, por aceitarem a parceria para
o processamento das amostras, auxiliando na conquista de resultados de qualidade para a
dissertação.
À banca examinadora por ter aceitado o meu convite e por contribuir prontamente com
conhecimento de referência nesse estudo.
E, por último, mas não menos importante, à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de Alagoas pela bolsa concedida, e ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da
Universidade Federal de Alagoas, por viabilizar a execução desta dissertação.
EPÍGRAFE
“Pense, acredite, sonhe e atreva-se.”
- Walt Disney
RESUMO
A tripanossomíase americana ou doença de Chagas (DC) é uma doença zoonótica negligenciada
causada pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi (T. cruzi), sendo o cão o principal
reservatório peridoméstico. No entanto, ainda existem lacunas no conhecimento sobre a
epidemiologia da doença de Chagas (DC) em cães domésticos. Desse modo, objetivou-se com
este estudo determinar e comparar a ocorrência de anticorpos IgG anti–T. cruzi em cães
domiciliados e de abrigos no município de Arapiraca, Alagoas, Brasil. Amostras de soro
sanguíneo obtidas por centrifugação foram armazenadas em microtubos a -20ºC até o momento
da análise sorológica. No total de 300 amostras, 150 amostras de soro de cães provenientes de
dois abrigos e de 150 de caninos domiciliados, foram submetidas à detecção de anticorpos IgG
anti-T. cruzi pelo método de Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI) (ponto de corte ≥
40). Aspectos epidemiológicos como sexo, raça e idade foram coletados para correlacionar com
soropositividade. As análises estatística e epidemiológica foram realizadas utilizando os
programas EpiInfo 7.2.10. e JASP 0.19.1.0. Um total de 9,0% (27/300) dos animais foram
sororreagentes para anticorpos anti-T. cruzi, com um cão de abrigo (3,70%; 1/27) apresentando
título 640. Cães em situação de abrigo (frequência = 77,8%; 21/27) apresentaram OR = 3,29
(IC95% [1,25 – 8,64]; p = 0,0156) quando comparados aos cães domiciliados (frequência =
22,2%; 6/27). Os dados epidemiológicos obtidos neste estudo destacam a relevância dos cães
de abrigo como potenciais animais sentinelas, contribuindo para o monitoramento da ocorrência
de T. cruzi na população humana.
Palavras-chave: caninos, doença de Chagas, saúde única, sorologia, zoonoses.
ABSTRACT
American trypanosomiasis, or Chagas disease (CD), is a neglected zoonotic disease caused by
the flagellated protozoan Trypanosoma cruzi (T. cruzi), with dogs serving as the primary
peridomestic reservoir. Despite of that, there are gaps to fully understand Chagas disease (CD)
epidemiology in domestic dogs. The aim of the present study was to determine and compare
the prevalence of anti-T. cruzi IgG antibodies in domestic and shelter dogs in Arapiraca,
Alagoas, Brazil. Blood serum samples obtained by centrifugation were stored in microtubes at
-20°C until serological analysis. A total of 300 serum samples, 150 from shelter dogs and 150
from household dogs were titled for anti-T. cruzi IgG antibodies using the Indirect
Immunofluorescence Assay (IFA) (cut-off point ≥ 40). Epidemiological data including sex,
breed, and age were collected to assess correlations with seropositivity. Statistical and
epidemiological analyses were conducted using EpiInfo 7.2.10 and JASP 0.19.1.0 software. A
total of 9.0% (27/300) of the animals were seroreagent for anti-T. cruzi antibodies, with one
shelter dog (3.7%; 1/27) exhibiting a titer 640. Shelter dogs (frequence = 77.8%; 21/27) had an
OR = 3.29 (95% CI [1.25–8.64]; p = 0.0156) compared to household dogs (frequence = 22.2%;
6/27). The findings highlight the importance of shelter dogs as sentinel, contributing to the
monitoring of T. cruzi occurrence in the human population.
Keywords: canines, Chagas disease, one health, serology, zoonoses.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1. Representação esquemática do conceito de Saúde Única.……………..…....…......... 18
Figura 2. Triatoma brasiliensis, principal vetor da doença de Chagas no nordeste brasileiro
.................................................................................................................................................... 21
Figura 3. Distribuição mundial dos casos da infecção por Trypanosoma cruzi entre 2006 e
2009............................................................................................................................................ 22
Figura 4. Situação epidemiológica da doença de Chagas em Alagoas em 2016, com destaque
para o município de Arapiraca.....................................................................................................23
Figura 5. Formas parasitárias de tripanossomatídeos baseado no formato do cinetoplasto e sua
localização em relação ao núcleo……………………………….………………….….............. 24
Figura 6. Representação esquemática de epimastigota do Trypanosoma cruzi.......................... 25
Figura 7. Ciclo biológico de Trypanosoma cruzi………………………………........................ 27
Figura 8. Evolução natural da infecção por Trypanosoma cruzi no hospedeiro………..…....... 28
Figura 9. História natural da infecção por Trypanosoma cruzi em cães………......................... 31
LISTA DE TABELAS
CAPÍTULO 1
Tabela 1. Distribuição das variáveis independentes de cães domésticos domiciliados e de
abrigo para anticorpos IgG anti-Trypanosoma cruzi do município de Arapiraca, Alagoas,
Nordeste do Brasil.................................................................................................................... 53
Tabela 2. Análise multivariada por regressão logística binomial para fatores associados ao risco
de soropositividade para anticorpos IgG anti-Trypanosoma cruzi em cães do município de
Arapiraca, Alagoas, Nordeste, Brasil........................................................................................ 54
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABINPET
Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação
ALT
Alanina Aminotransferase
AST
Aspartato Aminotransferase
CDC
Centro de Controle de Doenças
CEUA
Comitê de Ética de Uso de Animais
CFMV
Conselho Federal de Medicina Veterinária
COVID
Corona Virus Disease
DC
Doença de Chagas
EDTA
Ethylenediamine Tetraacetic Acid
ELISA
Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay
EVD
Ebola Virus Disease
FMVZ
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
GEDEF
Grupo Especial de Defesa da Fauna
HAI
Hemaglutinação Indireta
IBGE
Instituto Brasileiro de Geografia e Estátistica
IDHM
Índice de Desenvolvimento Humano Municipal
IgG
Imunoglobulina G
IPB
Instituto Pet Brasil
MERS
Middle East Respiratory Syndrome
MPOX
Mpox Virus
OMS
Organização Mundial da Saúde
ONGs
Organizações Não Governamentais
OR
Odds Ratio
PCR
Reação em Cadeia da Polimerase
RIFI
Reação de Imunofluorescência Indireta
SNIS
Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento
UNESP
Universidade Estadual Paulista
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 15
2
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ...................................................................................... 18
2.1.
Saúde única no contexto da interface humano-animal ....................................... 18
2.2. Trypanosoma cruzi .................................................................................................. 20
2.2.1. Etiologia e taxonomia .......................................................................................... 20
2.2.2. Epidemiologia ...................................................................................................... 21
2.2.3. Morfologia............................................................................................................ 24
2.2.4. Ciclo Biológico .................................................................................................... 26
2.2.5. Sinais clínicos....................................................................................................... 28
2.2.6. Diagnóstico .......................................................................................................... 30
2.2.7. Tratamento ........................................................................................................... 32
2.2.8. Prevenção e controle ............................................................................................ 33
2.3.
Ocorrência de zoonoses em cães domiciliados e de abrigos ............................... 34
2.4. A importância da guarda responsável e do bem-estar animal na prevenção e
controle de zoonoses em cães ............................................................................................. 35
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 17
CAPÍTULO 1 .......................................................................................................................... 26
Seroprevalence of Trypanosoma cruzi in Household and Shelter Dogs in the
Northeastern Region of Brazil .............................................................................................. 26
3
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 40
15
1
INTRODUÇÃO
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de
Estimação (ABINPET), o Brasil é o país que abriga a terceira maior população de cães e gatos
do mundo, com mais de 149 milhões de animais, dos quais 67,8 são cães (Abinpet, 2022).
Porém, o convívio estreito associado à crescente aquisição de animais de companhia pode
oferecer riscos à saúde humana, com o surgimento e a propagação de doenças que podem ser
compartilhados entre os animais e os seres humanos e vice-versa, caracterizando-se como
zoonoses e um problema de saúde pública (Grisolio et al., 2017).
Outro grande desafio de saúde pública é o abandono de cães nas ruas e o resgate
contínuo por abrigos de animais, pois pode promover a disseminação de zoonoses (Alves et al.,
2013). De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil tem
aproximadamente 30 milhões de animais abandonados, sendo cerca de 20 milhões de cães
(CFMV, 2019), dos quais 177.562 (96%) estão sob a tutela de organizações não governamentais
(ONGs) e protetores (IPB, 2022).
O abandono é uma prática ilegal de maus-tratos que afeta o bem-estar desses animais e
os setores de saúde pública, meio ambiente e a sociedade de uma forma em geral (Boiko;
Vacelkoski, 2020). Os abrigos com atuação em proteção animal surgiram com o intuito de
solucionar esses problemas relacionados ao abandono de animais de companhia (Galdioli, et
al., 2021).
Em contrapartida, o acolhimento de cães em situação de vulnerabilidade por abrigos de
animais produz ambientes superpopulosos, favorecendo a propagação de patógenos infecciosos
e transmitidos por vetores, tornando-os focos de parasitos para animais resgatados e para as
populações vizinhas de cães e residentes humanos (Estevam et al., 2022). Nesse contexto,
devido à proximidade com o humano, os cães podem ser utilizados como animais sentinelas a
fim de avaliar a exposição humana a determinadas zoonoses e os fatores de risco associados
(Durães-Oliveira et al., 2024).
Enfermidades denominadas zoonóticas são doenças infecciosas nas quais a fonte de
infecção é um animal e/ou suas secreções, meio ambiente e/ou alimentos contaminados,
podendo ser causadas por diferentes agentes etiológicos (Skowron, Grudlewska-Buda e
Khamesipour, 2023). O termo "zoonose" tem origem no grego (zoon, animal; noso, doença) e
vem sendo empregado desde o século XIX. Anteriormente, designava enfermidades que
acometiam apenas os animais. Com o tempo, passou a se referir também às doenças
16
transmitidas dos seres humanos para os animais, definição que permanece até hoje (Gomes et
al., 2022)
Em uma pesquisa realizada por Taylor et al. (2001), foram identificadas 1.415 espécies
de organismos infecciosos capazes de causar doenças nos seres humanos, sendo 61%
zoonóticos, enquanto apenas 33% dessas espécies eram conhecidas como transmissíveis entre
seres humanos e 6% a rota de transmissão não é conhecida. Em outro estudo realizado por
Haydon et al. (2002), observou-se que 57 de 70 doenças de animais consideradas de maior
importância internacional infectam múltiplos hospedeiros.
Já na obra intitulada “Zoonoses e enfermidades transmissíveis comuns ao homem e aos
animais” de Acha e Szyfres, os autores descreveram 174 zoonoses, das quais 80 são doenças
em comum com cães (Grisolio et al., 2017). De uma forma geral, 75% das doenças infecciosas
emergentes ou reemergentes, ou seja, que são transmitidas por um agente etiológico novo ou
conhecido, respectivamente, têm sua origem associada aos animais (Taylor et al., 2001;
Hodgson et al., 2015). Contudo, desde a Idade Antiga já é relatado o aparecimento de doenças
em seres humanos devido a presença ou influência deles (Gomes et al., 2022).
As tripanossomíases causadas por Trypanosoma spp. são doenças zoonóticas
classificadas como antropozoonóticas de grande importância para a medicina veterinária e para
o âmbito da saúde pública (Silva, 2022). Segundo dados recentes, a tripanossomíase americana
causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi tem uma incidência anual de 30.000 casos em 21
países da América Latina (Duãrez-Oliveira et al., 2024). No Brasil, essa doença zoonótica está
presente na lista de doenças tropicais negligenciadas e estima-se que três milhões de indivíduos
estejam infectados (Fernandes et al., 2016). No estado de Alagoas, 52 dos 102 municípios são
classificados como endêmicos, enquanto os outros 50 estão em áreas de vigilância. Entre os
municípios endêmicos, destaca-se Arapiraca (Sesau, 2020).
Os cães desempenham um papel epidemiológico importante nos ciclos de transmissão
de T. cruzi por possibilitar a propagação da infecção em seres humanos, servindo como ligação
entre os ciclos doméstico e silvestre do parasito (Freitas, 2016). Assim, além de manifestar a
doença, o cão é reconhecido como o principal reservatório doméstico e está diretamente
relacionado com a maioria dos casos de infecção humana (Maciel et al., 2023). No Brasil, de
acordo com a região estudada, a soroprevalência em cães variou de 0 a 53% (Freitas et al.,
2022).
Indivíduos que convivem com cães infectados por T. cruzi em suas residências
apresentam uma soroprevalência cinco vezes maior em comparação àqueles que não possuem
17
cães parasitados em seus domicílios. Além disso, em regiões onde está presente Triatoma
infestans, o principal vetor domiciliar, a taxa de infecção em cães é maior do que em humanos
(Perez, 2015; Freitas, 2016; Silva, 2022; Maciel et al., 2023). Uma pesquisa investigou os
padrões alimentares de mais de 1000 T. infestans domiciliados, identificando os cães como a
fonte de alimentação mais frequente (49%) (Freitas et al., 2022). Portanto, a eliminação desses
patógenos na população humana depende, principalmente, das medidas de prevenção e controle
tomadas para prevenir essas enfermidades nos animais.
Porém, é importante salientar que outas espécies de triatomíneos também podem
albergar T. cruzi, como Triatoma brasiliensis, o vetor mais importante do T. cruzi na região
Nordeste do Brasil, com alto índice de infestação e adaptabilidade às condições climáticas e ao
habitat humano, possibilitando restringir seu acesso aos animais domésticos e sinantrópicos
para o repasto sanguíneo (Jaimes-Dueñez et al.,2020; Freitas et al., 2022; Maciel et al., 2023).
No nordeste brasileiro, foi registrado a ocorrência de infecção natural por Trypanosoma
cruzi em cães nos estados da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe e Bahia (Cruz et
al., 2020). Porém, dados sobre a infecção no estado de Alagoas ainda são limitados. Em 2011,
foi descrito a ocorrência da infecção em Marechal Deodoro, Zona da Mata Alagoana (Barbosa
et al., 2011).
Uma alternativa para tentar solucionar os problemas decorrentes da interface humanoanimal-ambiente é a compreensão do conceito de Saúde Única (One Health), abordagem
voltada para a investigação e resolução de ameaças à saúde animal, ambiental e humana
(Fontes, 2023), visto que por meio de campanhas de controle de vetores, manejo adequado de
animais e conscientização pública, é possível mitigar os riscos associados a essa zoonose
(Brasil, 2017).
Desse modo, levando em consideração a importância dessa enfermidade na saúde
animal e a preocupação da transmissão desse agente a população humana, além da escassez de
dados disponíveis sobre o tema na região estudada, o projeto de pesquisa objetivou determinar
a ocorrência de anticorpos IgG anti–T. cruzi em cães domiciliados e de abrigos no município
de Arapiraca, Alagoas, Brasil, bem como investigar os fatores associados ao risco de infecção
e estabelecer o potencial sentinela da espécie canina.
Este trabalho está dividido em duas partes: a primeira parte constitui-se da revisão
bibliográfica sobre a doença de Chagas (DC). A segunda parte é composta por um artigo
científico apresentado em forma de capítulo, que foi escrito com base nos resultados obtidos
nesta pesquisa.
18
2
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1. Saúde única no contexto da interface humano-animal
A Saúde Única (One Health) é uma abordagem multidisciplinar que reconhece que a
saúde dos seres humanos, animais domésticos e selvagens e o meio ambiente estão inteiramente
relacionados e interdependentes (Figura 1) (Fontes, 2023). Este conceito teve origem do
princípio de “Medicina Única” ou “Medicina Unificada” (One Medicine), que destaca a
conexão entre a medicina humana e veterinária, especialmente no contexto das zoonoses.
Complementarmente, a expressão “Um Mundo, Uma Saúde” (One World-One Health) foi
criada para enfatizar a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental (Ellwanger;
Chies, 2022).
Figura 1. Representação esquemática do conceito de Saúde Única (One Health) (Fonte: Ellwanger; Chies,
2022).
Este conceito também foi descrito como um termo amplo e flexível, capaz de englobar os
desafios da saúde pública global, influenciando iniciativas como o "One Toxicology" e o "One
Welfare" (He et al., 2023). Apesar do termo ser mais comum atualmente, o conceito já existe
há mais de 200 anos, com a pesquisa realizada por Robert Koch sobre o carbúnculo (Shaheen,
2021). Outros cientistas pioneiros na área incluem o patologista canadense Sir William Osler,
19
que criou a disciplina de saúde pública veterinária nos Centros de Controle de Doenças (CDC)
dos EUA e Calvin Schwabe, reconhecido como o pai da epidemiologia veterinária (Overgaauw
et al., 2020).
Os pilares essenciais da Saúde Única visam contribuir para a segurança da saúde global
e incluem a prevenção, o controle e a gestão de doenças (Skowron, Grudlewska-Buda;
Khamesipour, 2023). Além disso, suas aplicações mais conhecidas estão relacionadas a
emergências zoonóticas, que evidenciam uma possível falta de planejamento em relação aos
diferentes aspectos da tríade humano-animal-ambiente (Soares, 2020).
Essa tríade abrange uma ampla variedade de cenários, como a convivência com animais
de estimação, o manejo de animais de produção, a exploração da vida silvestre e o impacto de
práticas humanas nos ecossistemas (Cavalcanti et al., 2021). Exemplos como o vírus Zika,
Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), Doença do Vírus Ebola (EVD), Varíola dos
Macacos (MPOX) e a pandemia de Covid-19 ilustram como a interface humano-animalambiente podem desencadear crises de saúde pública de grande magnitude (Haruna;
Muhammad; Lucero‐Prisno, 2023).
É evidente que há um equilíbrio entre patógenos e hospedeiros em seus ambientes
silvestres, mas a interferência humana nesse ciclo aumenta o risco de surgimento de novas
doenças e pandemias (Soares, 2020). Incentivar a conservação das florestas tropicais,
regulamentar o comércio de vida selvagem e aprimorar a biossegurança em zoológicos e
santuários são medidas importantes para prevenir e controlar essas doenças de maneira mais
eficaz (Haruna; Muhammad; Lucero‐Prisno, 2023).
Por outro lado, o papel dos animais de companhia, especialmente cães e gatos, ainda é
frequentemente subestimado nas discussões sobre Saúde Única, principalmente devido ao fato
de que diversas pandemias de doenças zoonóticas e infecciosas (re)emergentes, como as citadas
anteriormente, têm origem em espécies de animais selvagens (Overgaauw et al., 2020).
Contudo, a presença de doenças como a leishmaniose visceral, por exemplo, transmitida por
flebotomíneos e tendo cães como reservatórios, evidencia também a importância de estratégias
voltadas aos animais de companhia (Brasil, 2017).
Ainda temos uma compreensão limitada sobre o porquê de algumas zoonoses emergirem
e se espalharem com mais eficiência do que outras, quais mecanismos sustentam seu sucesso e
quais estratégias podem ser eficazes para controlá-las. Questões fundamentais incluem
identificar rotas de transmissão e aprofundar o entendimento sobre epidemias e pandemias
recentes (Skowron, Grudlewska-Buda; Khamesipour, 2023). Assim, uma estratégia integrada
20
de Saúde Única é essencial para a previsão, prevenção, detecção e controle de doenças que
estão sendo transmitidas de animais para seres humanos (Haruna; Muhammad; Lucero‐Prisno,
2023).
No Brasil, um exemplo de sucesso na aplicação da abordagem de Saúde Única foi o
avanço significativo no controle da raiva humana transmitida por cães, bem como no
enfrentamento dos casos envolvendo animais silvestres. No que diz respeito à formalização
dessa abordagem no país, um marco importante foi a criação do Grupo Técnico em Saúde
Única, dentro da Coordenação Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão
Vetorial (CGZV) (Meurer; Coimbra, 2023).
Entretanto, a implementação da saúde única enfrenta desafios devido à falta de
envolvimento político, o que limita sua organização, implementação e expansão, mantendo-a
no nível teórico (He et al., 2023). Além disso, a privação de recursos financeiros, humanos e
materiais, e falta de reconhecimento da importância da saúde animal e ambiental para a
manutenção do bem-estar global são outros fatores que dificultam sua consolidação (Meurer;
Coimbra, 2023).
Portanto, o conceito de saúde única desempenha um papel importante no controle e
prevenção de zoonoses ao integrar a saúde animal, humana e ambiental, uma vez que nenhum
setor pode abordar esses problemas sozinho. A saúde humana e animal pode ser aprimorada
dentro da abordagem "Saúde Única" usando esforços colaborativos multissetorial, permitindo
reduzir e prevenir facilmente o risco de futuros vírus zoonóticos (Shaheen, 2021).
2.2. Trypanosoma cruzi
2.2.1. Etiologia e taxonomia
A tripanossomíase americana ou doença de Chagas (DC) é uma doença zoonótica
negligenciada causada pelo protozoário unicelular flagelado Trypanosoma cruzi (T. cruzi),
pertencente à família Trypanosomatidae, dentro da ordem Kinetoplastida, classe
Kinetoplastidae, filo Sarcomastigophora e subfilo Mastigophora (Eloy; Lucheis, 2009).
Descoberto em 1909 por Carlos Chagas, T. cruzi é transmitido por insetos hematófagos,
vetores da subfamilia Triatominae e família Reduviidae (Hemiptera) pertencentes a três
gêneros principais: Panstrongylus, Rhodnius e Triatoma (Cruz et al., 2020). No Brasil, cinco
espécies de triatomíneos apresentam relevância epidemiológica devido seus ambientes
domésticos: Triatoma infestans, Panstrongylus megistus, Triatoma brasiliensis, Triatoma
pseudomaculata e Triatoma sordida, sendo Triatoma brasiliensis (Figura 2), o vetor mais
21
importante no Nordeste brasileiro (Freitas et al., 2022). O triatomíneo também é popularmente
conhecido no país como barbeiro, chupança, fincão ou bicudo (Silva, et al., 2022).
Figura 2. Triatoma brasiliensis, principal vetor da doença de Chagas no nordeste brasileiro
(Fonte: Maciel et al., 2023).
Os hospedeiros de T. cruzi são os seres humanos, primatas, cães, gatos e reservatórios
silvestres, enquanto os vetores biológicos são os triatomíneos - barbeiros (Maciel et al., 2023).
As principais espécies de reservatórios naturalmente infectados com T. cruzi pertencem a sete
ordens: Marsupialia, Rodentia, Carnivora, Primata, Chiroptera, Lagomorpha e Artiodactyla,
além da superordem Xenarthra, sendo os gambás (Didelphis spp.) os reservatórios selvagens
mais importantes (Nantes et al., 2020). Embora a maioria dos reservatórios habite ambientes
selvagens, animais domésticos (como cães) e sinantrópicos (como roedores) podem servir como
elo epidemiológico para os ciclos selvagem, peridoméstico e doméstico (Fuentes-Vicente et al.,
2023).
2.2.2. Epidemiologia
De acordo com dados recentes, estima-se que 6 a 7 milhões de pessoas estão infectadas
pela DC em todo o mundo, resultando em aproximadamente 10.000 mortes anuais em pelo
menos 21 países da América Latina (Figura 3) (Freitas et al., 2022). A Bolívia apresenta a maior
taxa de infecção, atingindo 6,1% da população, seguida pela Argentina, com 3,6%, e pelo
22
Paraguai, com 2,1%. Em números absolutos, o Brasil e a Argentina concentram 42% dos casos,
com quase 1,2 milhão e 1,5 milhão de pessoas infectadas, respectivamente (Nunes et al., 2018).
Figura 3. Distribuição mundial dos casos da infecção por Trypanosoma cruzi entre 2006 e 2009 (Fonte: Perez,
2015).
No Brasil, a doença é incluída na lista de doenças tropicais negligenciadas e predomina
em sua forma crônica. No entanto, surtos agudos têm sido descritos nos últimos anos,
frequentemente associados à ingestão de alimentos contaminados, como caldo de cana, açaí e
polpa de açaí e bacaba (Freitas, 2016; Zapparoli et al., 2022). No final da década de 70, o Brasil
apresentava 18 estados com mais de 2.200 municípios em áreas endêmicas sob risco de
transmissão vetorial da DC (Perez, 2015).
O Nordeste foi classificado como a segunda região com maior índice de infecção por DC,
devido aos elevados níveis de infestação por triatomíneos. Dados de DC foram registrados em
sete estados da região, com destaque para a predominância de casos no Maranhão (Oliveira et
al., 2021). Entretanto, a primeira menção à existência dessa doença endêmica no Nordeste do
Brasil é atribuída a Carlos Chagas, que, em uma entrevista de 1911, afirmou que a infecção
estava presente no sul da Bahia (Eloy; Lucheis, 2009). No estado de Alagoas, 52 dos 102
municípios são classificados como endêmicos e 50 estão em áreas de vigilância (Figura 4)
(Sesau, 2020).
23
Figura 4. Situação epidemiológica da doença de Chagas em Alagoas em 2016, com destaque para o município
de Arapiraca (Adaptado da Secretária de Estado da Saúde de Alagoas, 2020).
Outro fator que deve ser levado em consideração é a migração da infecção por T. cruzi
para países não endêmicos. Estima-se que cerca de 300.000 imigrantes infectados vivam nos
Estados Unidos e, pelo menos, 42.000 na Espanha. Além disso, casos de residentes infectados
foram relatados em países como Suíça, França, Itália, Canadá, Austrália e Japão (Nunes et al.,
2018). Nos países das Antilhas, Bahamas, Belize, Cuba, Estados Unidos, Guiana, Guiana
Francesa, Haiti, Jamaica e Suriname, onde o ciclo silvestre predomina, casos ocasionais da
doença foram registrados em imigrantes provenientes de nações endêmicas (Perez, 2015).
No que diz respeito ao vetor da doença, mais de 130 espécies de triatomíneos foram
identificadas como potenciais vetores de T. cruzi. No Brasil, foram registradas 52 espécies, das
quais cinco são consideradas de relevância epidemiológica devido aos seus habitats domésticos
(Freitas et al., 2022). Contudo, Triatoma brasiliensis é o principal vetor de T. cruzi no
Nordeste, apresentando altos índices de infecção devido à sua grande adaptabilidade às
condições climáticas quentes e secas da região (Maciel et al., 2023).
24
2.2.3. Morfologia
A morfologia do T. cruzi é altamente especializada e composta por elementos celulares
fundamentais para sua sobrevivência e infectividade, pois além de apresentar organelas comuns
que são encontradas em células eucarióticas, como retículo endoplasmático e complexo de
Golgi, apresenta também estruturas próprias, como os microtúbulos subpeliculares, a estrutura
paraflagelar e o cinetoplasto (Brener, 1997).
A superfície celular dos tripanossomatídeos é composta pela membrana plasmática e por
microtúbulos subpeculiares que estão interligados entre si, conferindo rigidez celular e
dificultando sua ruptura (Souza, 2002). Outra estrutura característica é a presença de um flagelo
único que se exterioriza através da bolsa flagelar, uma área de invaginação da membrana
plasmática. No flagelo ainda, observa-se uma estrutura paraflagelar definida como um arranjo
de filamentos protéicos que auxiliam a locomoção e a adesão às células do hospedeiro (Gull,
1999).
A mitocôndria é única, ramificada e se estende por todo corpo celular. Possui uma região
específica abaixo do corpúsculo basal, onde encontra-se o DNA mitocondrial (kDNA),
denominado de cinetoplasto. O formato do cinetoplasto e sua localização em relação ao núcleo
sãos parâmetros utilizados na classificação das diferentes formas de desenvolvimento de T.
cruzi (Figura 5) (Fiocruz, 2017).
Figura 5. Formas parasitárias de tripanossomatídeos baseado no formato do cinetoplasto e sua localização em
relação ao núcleo (Adaptado de Gull, 1999).
A forma epimastigota apresenta o cinetoplasto e a bolsa flagelar em posição anterior ao
núcleo (Silva, 2022). A forma tripomastigota apresenta uma extremidade pontiaguda, corpo
25
achatado, núcleo central grande e cinetoplasto grande próximo à extremidade posterior,
enquanto a forma amastigota apresenta formato arredondado ou ovalado, possui núcleo grande
e flagelo reduzido e inaparente (Maciel et al., 2023). Em relação ao núcleo, este possui um
tamanho pequeno, medindo aproximadamente 2,5 µm, com organização estrutural semelhante
à de outras células (Souza, 2002).
Na parte externa da membrana das formas amastigotas e epimastigotas do T. cruzi, é
possível identificar estruturas esféricas e ácidas chamadas de reservossomos, que são definidas
como compartimentos lisossomais (Fiocruz, 2017). Os reservossomos apresentam em seu
interior a cruzipaína, principal proteinase do T. cruzi, sugerindo a participação dessas enzimas
na metaciclogênese (alterações morfológicas, genéticas e metabólicas) devido a sua alta
expressão, entretanto isso não é observado nas formas tripomastigotas (Soares, 1999).
No citoplasma encontra-se organelas denominadas glicossomos e os acidocalcissomos.
Os glicossomos são definidos como peroxissomos especializados responsáveis pela
acumulação de enzimas da via glicolítica e dos processos catabólicos e anabólicos e os
acidocalcissomos são definidos como grânulos eletrondensos envolvidos no armazenamento de
cálcio (Fiocruz, 2017). A figura 6 ilustra a forma epimastigota do T. cruzi com suas principais
estruturas.
Figura 6. Representação esquemática de epimastigota de Trypanosoma cruzi (Fiocruz, 2017)
26
Em relação aos triatomíneos, estes insetos possuem as fases de ovo, ninfa e adulto. Os
ovos recém-postos são brancos, apresentam opérculos e tornam-se rosados quando o embrião
está formado, após cerca de uma semana. Todas as fases de ninfa são hematófagas e apresentam
semelhança com os adultos, diferenciando-se apenas pelo tamanho, ausência de asas e de
aparelho genital (Maciel et al., 2023).
2.2.4. Ciclo Biológico
O ciclo de vida de T. cruzi é heteroxênico, com hospedeiros vertebrados (mamíferos) e
vetores (triatomíneos). A transmissão vetorial ocorre por meio de três ciclos biológicos
distintos: doméstico, peridoméstico e silvestre, sendo o ciclo doméstico o de maior relevância
epidemiológica (Zetun et al., 2014). O ciclo doméstico de transmissão do T.
cruzi provavelmente teve origem na alteração constante de ecótopos selvagens promovido por
atividades humanas, o que facilitou o processo de adaptação do vetor ao ambiente domiciliar
(Cruz et al., 2020).
No ciclo doméstico, o inseto triatomíneo (macho ou fêmea), principal vetor de T. cruzi,
ingere a forma tripomastigota (circulante) ao se alimentar no hospedeiro infectado. No intestino
médio do inseto, o protozoário se diferencia para a forma epimastigota, multiplica-se e
transforma-se na forma tripomastigota metacíclica na ampola retal, onde são eliminados nas
fezes (Durães-Oliveira et al., 2024).
O triatomíneo infectado costuma se alimentar do hospedeiro à noite e depositar as fezes
contaminadas próximo ao local da picada. Ao se coçar, o hospedeiro possibilita que as fezes
contendo tripomastigotas metacíclicos penetrem na ferida e migrem para a corrente sanguínea
(Maciel et al., 2023). Uma vez no hospedeiro, as tripomastigotas invadem as células do sistema
fagocítico mononuclear e transformam-se em amastigotas por meio de fissão binária no
citoplasma celular (Silva, 2022). Outras formas de transmissão incluem transmissão oral por
meio de alimentos contaminados, transfusão de sangue infectado, transmissão congênita,
transplante de órgãos e acidentes de laboratório (OMS, 2015).
A infecção natural de cães por T. cruzi ocorre de forma semelhante como nas infecções
humanas, por meio de transmissão ativa pelo vetor e contaminação da pele e/ou conjuntiva por
fezes contaminadas (Fernandes et al., 2016). No entanto, a infecção nos cães ainda não está
bem elucidada, acreditando-se que estes são infectados após entrarem em contato com fezes de
triatomíneos contendo tripomastigota de T. cruzi, pela ingestão de triatomíneos ou mamíferos
infectados ou congenitamente (Figura 7) (Freitas et al., 2022).
27
Figura 7. Ciclo biológico de Trypanosoma cruzi (Fonte: Durães-Oliveira et al., 2024).
Cães são considerados o principal reservatório na transmissão peridomiciliar da
infecção por T. cruzi devido a estreita proximidade com os humanos, apresentando alta
suscetibilidade à infecção (Durães-Oliveira et al., 2024). A relevância do cão como reservatório
doméstico de T. cruzi está no seu papel de intermediação entre os ciclos doméstico,
peridoméstico e silvestre, pois o cão vive frequentemente em contato com vetores no
peridomicílio ou dentro de casa e, por vezes, adentra o ciclo silvestre acompanhando seus
tutores em atividades como a caça, estando exposto ao risco de infecção tanto por via vetorial
quanto oral, ao consumir presas ou outros animais silvestres (Roellig; Ellis; Yabsley, 2009;
Perez, 2015; Santana et al., 2019).
No ciclo silvestre, os triatomíneos são capazes de infectar roedores, marsupiais e outros
animais silvestres que atuam como reservatórios do parasito (Nantes et al., 2020). A interação
com o ciclo doméstico é facilitada pelo deslocamento desses animais, especialmente em
situações causadas pela intervenção humana (Zetun et al., 2014). Desse modo, as espécies
selvagens envolvidas na transmissão de T. cruzi costumam viver em áreas próximas às
residenciais, o que possibilita que os cães tenham contato com vetores infectados ou até mesmo
cacem mamíferos infectados (Durães-Oliveira et al., 2024).
28
2.2.5. Sinais clínicos
As manifestações clínicas da infecção chagásica natural em cães são pouco descritas, e,
embora essa espécie seja frequentemente acometida pela doença, a maior parte das informações
provém de infecções experimentais ou de estudos pós-morte (Souza, 2007). Contudo, a espécie
canina é a única capaz de desenvolver alterações patológicas crônicas semelhantes às
observadas em seres humanos, o que permite que esses animais sobrevivam por vários anos
hospedando o protozoário (Freitas, 2016), constituindo-se em modelo experimental para a
doença.
Os sinais clínicos variam conforme a fase da doença que podem ser divididas em: fase
aguda e fase crônica (Figura 8). A fase aguda ocorre nos primeiros dias após a exposição,
podendo durar até dois ou três meses e a fase crônica manifesta-se entre 8 e 36 meses após a
infecção inicial (Maciel et al., 2023). A gravidade das manifestações clínicas é influenciada por
fatores como idade do animal, tempo de exposição ao parasita e a cepa envolvida (Fernandes
et al., 2016).
Figura 8. Evolução natural da infecção por Trypanosoma cruzi no hospedeiro (Fonte: Durães-Oliveira et al.,
2024).
A fase aguda é dificilmente diagnosticada, pois geralmente é assintomática e, quando
há manifestações, elas são transitórias e inespecíficas, o que leva a uma tendência a serem
negligenciadas ou desconsideradas (Durães-Oliveira et al., 2024). Cães jovens, com cinco a
29
seis meses de idade, são mais comumente afetados, apresentando infecção generalizada com
lesões no miocárdio e no sistema nervoso central (Eloy; Lucheis, 2009). Cães mais velhos
frequentemente apresentam sintomas mais brandos, como depressão discreta e anorexia leve
(Fernandes et al., 2016).
De forma geral, na fase aguda observa-se febre, fraqueza, adenomegalia,
hepatoesplenomegalia, conjuntivite unilateral, miocardite, insuficiência cardíaca, crises
convulsivas e meningoencefalite (Silva et al., 2022). Em filhotes, os principais sinais clínicos
observados são letargia, linfadenopatia generalizada e, em alguns casos, esplenomegalia e
hepatomegalia (Freitas et al., 2022). Hipoglicemia é comum nessa fase, correlacionando-se
inversamente com a carga parasitária no sangue. Alterações laboratoriais incluem anemia, que
pode ser macro ou normocítica, elevações de alanina amino transferase (ALT), aspartato
aminotransferase (AST), ureia e creatinina (Barr, 2009).
A fase crônica pode se manifestar de forma assintomática ou indeterminada, assim como
nos seres humanos, sendo caracterizada pela presença de anticorpos IgG anti-T. cruzi e
parasitemia subpatente (Maciel et al., 2023). Essa fase crônica indeterminada se desenvolve
entre 8 e 36 meses após a infecção inicial, apresentando sinais clínicos mais intensos, como
cardiomegalia de leve a moderada, que pode evoluir para insuficiência cardíaca congestiva
(Santana et al., 2012). Contudo, os sinais clínicos mais observados incluem fraqueza,
intolerância ao exercício, síncope e, às vezes, morte súbita, com a confirmação sendo feita por
meio da necropsia (Silva et al., 2022).
Assim como em humanos, bloqueios atrioventriculares e arritmias são comuns,
decorrentes da destruição tecidual direta, lesões no sistema nervoso intracardíaco e processos
autoimunes (Eloy; Lucheis, 2009). Histologicamente, a fase crônica é marcada por fibrose
miocárdica difusa, inflamação mononuclear intersticial e substituição de cardiomiócitos por
fibras de colágeno, geralmente sem ninhos de amastigotas (Guedes, 2007).
O prognóstico é imprevisível e a taxa de sobrevivência de cães cronicamente infectados
e não tratados varia, visto que cães diagnosticados com DC em idade mais avançada costumam
sobreviver por mais tempo do que aqueles diagnosticados em idade mais jovem (Freitas et al.,
2022). Por exemplo, cães diagnosticados em idade mais avançada apresentaram sobrevida entre
30 e 60 meses, enquanto cães diagnosticados em idade mais jovem viveram, em média, até 5
meses após o diagnóstico (Barr, 2009).
30
2.2.6. Diagnóstico
A DC canina é de difícil diagnóstico. Reação sorológica cruzada com anticorpos antiLeishmania spp., variação das manifestações clínicas, ocorrência inconsistente de parasitemia
e rara detecção de amastigotas do parasito em cortes histológicos de animais infectados são
alguns dos fatores que dificultam a investigação clínica (Maciel et al., 2023).
Os testes para detecção da DC incluem técnicas diretas, que identificam a presença do
parasito ou de seus componentes, como métodos parasitológicos e moleculares, além de
técnicas indiretas, que analisam a resposta imune do hospedeiro (Durães-Oliveira et al., 2024).
Em áreas endêmicas, a manifestação dos sinais clínicos descritos acima e a presença de
anormalidades clinicopatológicas podem ser utilizados como suspeita de infecção por T. cruzi
nos cães (Freitas et al., 2022).
A fase aguda da doença é marcada por um pico de parasitemia e disseminação sistêmica
do protozoário, o que facilita sua detecção no sangue (Silva et al.,2022). Assim, o diagnóstico
laboratorial pode ser realizado por métodos que detectam a presença do parasito no sangue,
através da detecção direta de formas tripomastigotas no esfregaço sanguíneo corado pelo
método de Giemsa ou por esfregaço espesso (Eloy; Lucheis, 2009). Contudo, as contagens de
parasitos no sangue podem ser extremamente baixas, a ponto de apenas alguns estarem
presentes em toda a lâmina, tornando necessário um exame minucioso (Barr, 2009).
Na fase crônica, os métodos sorológicos indiretos são os mais indicados para o
diagnóstico devido à baixa quantidade de protozoários circulantes e à presença de anticorpos
específicos, sendo os mais utilizados: a Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI), a
Hemaglutinação Indireta (HAI), os testes imunocromatográficos e a técnica de Imunoadsorção
Enzimática (ELISA) (Silva et al.,2022).
Um resultado sorológico positivo indica exposição prévia ao parasito e, provavelmente,
uma infecção ativa, uma vez que a cura parasitológica é considerada pouco provável. Estimase que os ensaios sorológicos apresentam sensibilidade e especificidade superiores a 90% em
cães e seres humanos. (Durães-Oliveira et al., 2024). Durante a fase crônica, a produção de
anticorpos anti-T. cruzi atinge títulos facilmente detectáveis. Em cães, os níveis de
imunoglobulina G (IgG) aumentam até 15 meses pós-infecção (Freitas et al., 2022).
Dentre os testes sorológicos disponíveis, a RIFI é considerada o teste de referência para
tripanossomíase americana, uma vez que detecta a presença de anticorpos IgG anti-T. cruzi e é
baseada em formas epimastigotas do parasito (Eloy; Lucheis, 2009). Entretanto, a sensibilidade
varia conforme os diferentes testes sorológicos e as cepas de T. cruzi, que é menor na infecção
31
aguda (Durães-Oliveira et al., 2024). Além disso, a especificidade dos testes sorológicos pode
ser afetada pela reatividade cruzada com outras espécies da família Trypanosomatidae e com
microrganismos filogeneticamente distantes (Luciano et al., 2009).
Por este motivo, a prova molecular de PCR tem sido indicada como uma ferramenta
eficaz para esclarecer resultados de sorologias inconclusivas no diagnóstico da DC em cães
naturalmente infectados (Maciel et al., 2023), pois possibilita a identificação e amplificação
seletiva do DNA do cinetoplasto e/ou núcleo do parasito, sendo uma técnica mais específica e
sensível em comparação com os métodos sorológicos (Viol et al., 2012).
Além dessas formas diagnósticas, o T. cruzi pode ser cultivado em meios artificiais e
ser detectado por xenodiagnóstico clássico ou artificial, entretanto esses métodos possuem
baixa sensibilidade (Souza, 2007). Tripomastigotas ocasionalmente também podem ser
encontrados no exame citológico de aspirados de linfonodos e em efusões abdominais (Barr,
2009). No post mortem, a necropsia e o exame histopatológico podem ser utilizados para
auxiliar no diagnóstico da doença de Chagas (Silva et al., 2022).
Desse modo, a escolha do método diagnóstico depende do estágio da doença e dos
recursos disponíveis, sendo recomendada a utilização combinada de métodos para aumentar a
confiabilidade dos resultados (Figura 9). A integração de técnicas parasitológicas, sorológicas
e moleculares permite um diagnóstico mais preciso e eficiente da tripanossomíase em cães
(Eloy; Lucheis, 2009).
32
Figura 9. História natural da infecção por Trypanosoma cruzi em cães (Fonte: Freitas et al., 2022).
2.2.7. Tratamento
Não existe um tratamento que seja eficaz para todos os estágios da DC em cães,
principalmente porque o diagnóstico geralmente é realizado tardiamente, na fase crônica,
momento no qual os tratamentos experimentais raramente alteram o curso da doença (Maciel
et al., 2023). Caso os cães sobrevivam à fase aguda, a progressão para o estágio crônico tende
a ser mais rápida em cães jovens, em comparação com aqueles diagnosticados em idade mais
avançada, que geralmente sobrevivem por mais tempo (Barr, 2009).
Os principais desafios no desenvolvimento de fármacos eficazes para o tratamento da
DC são o ciclo biológico complexo do parasito e a diversidade genética de cepas ou isolados
de T. cruzi (Zingales, 2011). Medicações disponíveis comercialmente possuem eficácia
limitada, demonstrando que a resposta terapêutica ao tratamento específico da doença
observada em cães é semelhante ao que ocorre em seres humanos (Silva et al., 2022).
Existem apenas dois medicamentos com eficácia comprovada para o tratamento da
infecção por T. cruzi em cães: Benznidazol e Nifurtimox. O Benznidazol é o principal
medicamento utilizado para o tratamento da DC em seres humanos e tem aprovação para o uso
em cães. Porém, os resultados podem ser menos eficazes em cães com infecção crônica ou em
estágios avançados da doença (Cruz et al., 2020). Já o Nifurtimox não está disponível para uso
no Brasil, não sendo regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
(Silva et al., 2022).
O Benznidazol e o Nifurtimox possuem a capacidade de induzir estresse oxidativo,
podendo danificar a estrutura celular e inativar o parasito, respectivamente (Durães-Oliveira et
al., 2024). Para o tratamento específico da doença em cães, são recomendados o Benzonidazol
na dose de 7 mg/kg por via oral a cada 12 horas por 2 meses e o Nifurtimox na dose de 2 a 7
mg/kg por via oral a cada 6 horas por 3 a 5 meses (Maciel et al., 2023). Entretanto, tem sido
relatado efeitos colaterais graves no uso dessas medicações em cães, como apatia, hipertonia,
hiperreflexia dos membros posteriores e perda de equilíbrio quando usado o Benznidazol e
efeitos neurológicos e gastrointestinais quando utilizado o Nifurtimox (Eloy; Lucheis, 2009).
Nos casos graves de miocardite aguda acompanhada de alta parasitemia, o prognóstico
é desfavorável e o risco zoonótico aumenta, especialmente para aqueles que manipulam
hemoderivados, sendo a eutanásia recomendada nesses casos (Barr, 2009). Todavia, foi
observado atividade terapêutica eficaz na associação do Benznidazol com o Itraconazol,
33
seguido, posteriormente, do uso isolado de Itraconazol em lesões cardíacas. Além do uso do
Nifurtimox combinado com corticosteroides que melhorou as taxas de mortalidade e morbidade
em cães (Silva et al., 2022).
2.2.8. Prevenção e controle
O controle baseia-se principalmente em medidas voltadas à prevenção da proliferação
de vetores tiatomíneos e ações específicas, como estudos sorológicos e entomológicos e
campanhas de conscientização (Eloy; Lucheis, 2009). Não existe vacina contra a DC, sendo o
controle vetorial a forma mais eficaz de combate à doença na América Latina (OMS, 2015).
Na ausência de vacinas eficazes, a principal estratégia para controlar a transmissão
vetorial de T. cruzi tem sido a supressão de triatomíneos pela pulverização de inseticidas
residuais (Maciel et al., 2023). Programas de controle de vetores têm sido altamente eficazes
na redução da transmissão doméstica e peridomiciliar do T. cruzi, visto que a infestação por
Triatoma infestans foi praticamente eliminada do Chile, Uruguai e Brasil (Nunes et al., 2018),
porém, outras espécies de triatomíneos estão presentes.
A prevenção e o controle da DC envolvem também a redução do contato dos cães com
os vetores, evitando que estes sejam alimentados com carne de hospedeiros reservatórios. Além
disso, canis devem ter estruturas melhoradas a fim de eliminar potenciais locais de nidificação
de vetores, assim como devem ser pulverizados mensalmente (Barr, 2009). Um estudo realizado
por Reithinger et al. (2005) demonstrou que coleiras de cães tratadas com deltametrina podem
auxiliar o controle da infecção canina, uma vez que reduzem a alimentação do Triatoma
infestans, por agirem como repelentes.
Ademais, a educação em saúde deve ser incorporada aos programas de vigilância,
destacando a importância dos triatomíneos como transmissores da DC e o papel do cão como
principal reservatório na transmissão peridomiciliar (Freitas, 2016).
Em adição ao tratamento medicamentoso, as práticas de controle ambiental também são
essenciais, especialmente em áreas endêmicas, onde os triatomíneos são comuns. O controle da
infestação de triatomíneos no ambiente dos cães e a educação dos responsáveis sobre o risco de
transmissão de T. cruzi são fundamentais para a prevenção de novas infecções e para a proteção
tanto dos cães quanto dos seres humanos (Cruz et al., 2020; Jaimes-Dueñez et al.,2020). Foi
observado que o uso de Citrato demonstrou eficácia na diminuição das populações de vetores.
Por outro lado, foi comprovado que o Fipronil, na forma spot-on, não tem a capacidade de
impedir a alimentação sanguínea de vetores da família Reduviidae em cães (Silva et al., 2022).
34
2.3. Ocorrência de zoonoses em cães domiciliados e de abrigos
O aumento e a disseminação de doenças zoonóticas, causadas por agentes infecciosos
compartilhados globalmente entre animais e humanos é uma das ameaças mais preocupantes à
saúde humana (Quaresma; Martins-Duarte; Medeiros, 2023). A concentração de animais
domésticos em áreas urbanas, aliado à presença de animais errantes, representa um fator
epidemiologicamente relevante, contribuindo para a contaminação de espaços públicos e para
a disseminação de doenças (Silva; Loures; Franciscato, 2022).
Um animal de estimação, companhia ou domiciliado pode ser definido como aquele que
vive dentro ou nas proximidades da residência, sendo alimentado e cuidado por seres humanos
(Overgaauw et al., 2020). Em contrapartida, cães classificados como “cães de abrigos”,
geralmente são animais errantes, capturados ou abandonados que foram abrigados
temporariamente até uma adoção (Budziak et al., 2016).
Nesse contexto, os cães errantes são definidos como aqueles animais que não estão sob a
supervisão direta de um tutor ou que têm liberdade para circular sem restrições (Crivellenti,
2018). Particularmente, cães errantes podem representar riscos mais graves de saúde e bemestar para humanos e outros animais, com a transmissão de doenças zoonóticas, visto que estão
constantemente nas ruas (Overgaauw et al., 2020). Dentre as zoonoses mais comuns de cães
errantes destacam-se a giardíase, raiva, leptospirose, leishmaniose, toxocariose e toxoplasmose
(Boiko; Vacelkoski, 2020).
O ambiente do abrigo representa um desafio no gerenciamento de doenças, pois animais
com históricos médicos e de exposição desconhecidos - já que a maioria é proveniente da rua precisam conviver em um espaço compartilhado, facilitando a transmissão de patógenos entre
os animais e destes para os humanos (DiGangi; Miller, 2021). Diversos fatores relacionados à
tríade epidemiológica influenciam a transmissão, suscetibilidade e exposição dos animais a
doenças infecciosas dentro dos abrigos, tais como a alta densidade e proximidade entre os
animais, a rotatividade frequente, o estresse, além de práticas inadequadas de higiene e
vacinação (Bezerra; Souza, 2022).
Em uma pesquisa realizada por Ferreira et al. (2009) foi encontrado uma prevalência de
parasitismo por Ancylostoma sp. e Toxocara canis consideravelmente maiores nos cães de
abrigo do que nos cães domiciliados em Sergipe. Paralelamente, Silva, Loures e Franscicato
(2022) também encontraram uma alta taxa de infecção por endoparasitos zoonóticos em cães
de abrigo, especialmente o Dipylidium caninum em Amazonas. Outro estudo conduzido em 17
abrigos por Estevam et al. (2022) no estado de Minas Gerais, identificou uma soroprevalência
35
de 33,7% por Leishmania infantum em cães abrigados, divergindo de resultados de estudos
anteriores envolvendo cães domiciliados.
De outro ponto de vista, um estudo demonstrou que animais de companhia representam
um potencial risco na transmissão de patógenos zoonóticos, principalmente quando há a
exposição prolongada e o contato íntimo com esses animais, como por exemplo, compartilhar
a cama (Zanen; Kusters; Overgaauw, 2022). O manejo inadequado de animais de estimação,
associado com a higiene ineficaz das mãos foi apontado como o principal fator de risco para a
maioria das infecções. Além disso, dormir com animais e permitir beijos e lambidas são
atividades que aumentam o risco e a transmissão de doenças (Smith; Whitfiel, 2012).
A proporção de doenças humanas zoonóticas que são atribuíveis a animais de estimação
é amplamente desconhecida, sendo provavelmente subestimada (Overgaauw et al., 2020), visto
que a detecção destas em seres humanos é de difícil previsibilidade, considerando-se apenas a
apresentação clínica dos animais de estimação que, frequentemente é um portador de uma
zoonose e não apresenta sintomas ou exibe apenas sinais inespecíficos (Smith; Whitfiel, 2012).
Porém, apesar do risco de adquirir infecção de um cão infectado ser baixo, a gravidade e a
dificuldade de tratar a doença em humanos é um fator importante para saúde pública (Barr,
2009).
Desse modo, a análise de risco torna-se imprescindível para evitar a transmissão de
zoonoses, realizando-se uma avaliação dos potenciais patógenos em uma área, além da
prevalência em animais, virulência para o homem, rotas de transmissão e sobrevivência do
agente no ambiente (Overgaauw et al., 2020). É imprescindível implementar programas
constantes e anuais de vacinação e educação em saúde para o controle de doenças
transmissíveis, como raiva, leishmaniose e leptospirose, além de ações preventivas contra
parasitoses em geral, contribuindo para a saúde pública e o bem-estar animal (GEDEF, 2017).
Além disso, os abrigos devem atentar-se às condições ambientais, aos procedimentos de
manejo dos animais, ao uso de equipamentos de proteção individual e à adesão às práticas
básicas de higiene (Smith; Whitfiel, 2012), com o intuito de reduzir o impacto de uma doença
zoonótica e as oportunidades de infecção nas populações de abrigos (humana e animal) devido
ao ajuste nas práticas de manejo (DiGangi; Miller, 2021).
2.4. A importância da guarda responsável e do bem-estar animal na prevenção e
controle de zoonoses em cães
1
15
A guarda responsável é definida como práticas de uma tutoria animal consciente, na qual o tutor
deve atender todas as necessidades fisiológicas, ambientais e psicológicas do animal a fim de
evitar acidentes, transmissão de doenças ou danos à comunidade e/ou ao ambiente (Carneiro et
al., 2023). Embora não haja um conceito global e único para a guarda responsável, ela envolve
as condições e responsabilidades que os tutores devem assumir para assegurar o bem-estar de
seus animais de estimação (Jorge et al., 2018).
O termo "guarda responsável" foi adotado para substituir "posse responsável", que
transmitia a ideia de que o animal era um "objeto" ou uma "coisa" passível de ser possuída, sem
vontade própria. Essa visão está ultrapassada, pois reconhece-se hoje que os animais são seres
sencientes, capazes de sentir emoções (Santana; Oliveira, 2019). A senciência animal é a
capacidade do animal de sentir dor, conforto, prazer e outras sensações, refletindo seu estado
de bem-estar (Ryan et al., 2019).
A guarda responsável e o bem-estar animal estão intimamente interligados, pois, quando
o responsável pelo animal não cumpre os deveres assumidos ao acolher um cão em sua casa
(ou abrigo), ele não segue os princípios de cuidado, comprometendo o bem-estar do cão (Siano,
2022). Assim, a promoção de uma tutoria responsável transcende o bem-estar animal, sendo
uma medida crucial de saúde pública para a prevenção de zoonoses, visto que práticas
adequadas de cuidado e manejo diminuem consideravelmente a probabilidade de transmissão
de doenças infecciosas de animais para humanos (Gonçalves; Cerqueira, 2024).
Por outro lado, o manejo irresponsável pode gerar um custo social significativo. O
cuidado com o cão é uma responsabilidade atribuída aos responsáveis, que atuam como
guardiões da saúde e do bem-estar do animal (Faraco, 2021). Nesse contexto, quando a guarda
responsável falha, contribui para o aumento da população de animais errantes e problemas
significativos para a comunidade, como contaminação por fezes em áreas públicas e maior risco
de transmissão de doenças zoonóticas (Barni et al., 2021).
A guarda responsável de animais de companhia abrange aspectos fundamentais para a
saúde animal e humana. Compreender os fatores associados à adoção dos princípios dessa
prática pode orientar a responsabilização, assegurar o bem-estar animal e humano e fortalecer
o controle de doenças (Penaforte et al., 2024). Pesquisas sugerem que a população de animais
em determinada área é influenciada pelo comportamento da comunidade e/ou dos tutores, sendo
provável que mudanças nas práticas de guarda responsável impactem mais o tamanho da
população do que apenas o controle reprodutivo (GEDEF, 2017).
16
Levando isso em consideração, os cuidados essenciais associados à guarda responsável
para assegurar o bem-estar e reduzir os riscos à saúde pública são: vacinação, controle de
doenças parasitárias e infecciosas, avaliação regular da saúde clínica por meio de visitas
veterinárias
regulares,
dieta
balanceada,
acesso
ilimitado
de
água
fresca,
sanitização/desinfecção, esterilização, etc. (Faraco, 2021).
Portanto, a guarda irresponsável de animais está diretamente ligada à proliferação de
zoonoses e representa um desafio para a vigilância epidemiológica. Por exemplo, o aumento de
cães em áreas urbanas é uma consequência da falta de controle reprodutivo, propiciando a
propagação de doenças e se tornado um problema público, visto que são difíceis de monitorar
e controlar (Gonçalves; Cerqueira, 2024). Castração, tratamento veterinário e coleta de fezes
em vias públicas são elementos essenciais no conceito de saúde única. Esses aspectos fazem
parte dos cuidados básicos, sendo fundamentais para a prática de um manejo responsável e
consciente (Barni et al., 2021).
Em conclusão, os cães têm um papel significativo na epidemiologia do T. cruzi, atuando
como reservatórios e como sentinelas da DC em áreas endêmicas. A proximidade com os seres
humanos e a capacidade de desenvolver a doença reforçam a relevância do cão na manutenção
do ciclo e na vigilância do T. cruzi. Contudo, os riscos de transmissão podem ser mitigados
efetivamente com a adoção de práticas de guarda responsável por meio de medidas preventivas,
como garantir a proteção dos cães contra os vetores triatomíneos, manejo ambiental, uso de
repelentes e manutenção adequada das moradias, tanto para cães domiciliados como de abrigos.
Dessa forma, além de proteger a saúde humana, a guarda responsável garante o bem-estar dos
cães. A integração entre saúde pública, animal e ambiental (saúde única) é fundamental para
reduzir o impacto da DC e proteger comunidades humanas e caninas.
17
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26
CAPÍTULO 1
Seroprevalence of Trypanosoma cruzi in Household and Shelter Dogs in the
Northeastern Region of Brazil
(artigo submetido ao periódico Topics in Companion Animal Medicine - Qualis A4; Fator de
impacto 1,30).
27
Seroprevalence of Trypanosoma cruzi in domiciled and shelter dogs in the Northeast
Region of Brazil
Carolina Ferreira de Oliveiraa,*, Pedro Levi Nascimento Oliveiraa, Jussara Nayanne dos Santos
Nascimentoa, Márcia Kikuyo Notomia, Gabriela de Lima Rodrigues Pintob, Bruna Nobre de
Souzab, Victoria Gamboa Bragab, Vitória Maximiana Soares dos Santosb, Luiz Daniel de
Barrosb, Hélio Langonib, Simone Baldini Lucheisb, Jonatas Campos de Almeidaa,c
a
Laboratório de Parasitologia e Doenças Parasitárias dos Animais Domésticos, Centro de
Engenharia e Ciência Agrárias, Universidade Federal de Alagoas, Viçosa, Alagoas, Brazil.
b
Laboratório de Diagnóstico de Zoonoses, Departamento de Produção Animal e Medicina
Veterinária Preventiva, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade
Estadual Paulista, Botucatu, São Paulo, Brazil.
c
Setor de Medicina Veterinária Preventiva, Departamento de Medicina Veterinária, Escola de
Veterinária e Zootecnia, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Brazil.
Abstract
Dogs play a crucial role as peridomestic reservoirs and potential sentinels of the environmental
circulation of Trypanosoma cruzi (T. cruzi). However, despite their relevance to One Health,
seroepidemiological studies on the distribution of T. cruzi in dogs remain scarce. Thus, the aim
of this study was to determine the frequency of anti-T. cruzi IgG antibodies in domestic and
shelter dogs in the municipality of Arapiraca, Alagoas, in the northeastern region of Brazil.
Serum samples from 150 dogs from two shelters and 150 from domestic dogs were tested for
IgG anti-T. cruzi antibodies using the Indirect Fluorescent Antibody Test (IFA) (cut-off ≥ 40).
Univariate analysis was employed to investigate factors associated with seropositivity for the
parasite. Of the animals, 9.0% (27/300) tested positive for anti-T. cruzi antibodies and one
shelter dog (3.70%; 1/27) had a titer of 640. Shelter dogs (frequency = 77.8%; 21/27) exhibited
an odds ratio (OR) = 3.29 (95% CI [1.25 – 8.64]; p = 0.0156) compared to domestic dogs
(frequency = 22.2%; 6/27). The results of this study show that shelter dogs are more exposed
to the infection and can be used as sentinel animals in local Chagas disease control programs
to predict the emergence of cases in human populations.
Keywords: canids, Chagas disease, serology, zoonoses
28
Introduction
American Trypanosomiasis or Chagas Disease (CD) is a vector-borne zoonosis caused
by the flagellated protozoan Trypanosoma cruzi.1 According to recent data, CD has an annual
incidence of 30,000 cases in 21 countries in Latin America.2 In Brazil, this zoonosis is listed
among neglected tropical diseases, and it is estimated that three million individuals are
infected.3 CD has been compared to the Human Immunodeficiency Virus (HIV) epidemic due
to the potential for transfusional transmission, the high cost of treatment, and the lack of
medications. 4
Dogs play a key role as peridomestic reservoirs and sentinels of the local circulation of
T. cruzi. Their proximity to humans makes dogs an attractive and significant food source for
vectors, making them highly susceptible to T. cruzi infection. 5,6 In the acute phase of the
disease, dogs can present high parasitemia, usually associated with an impaired immune
response. 7
The prolonged presence of shelter dogs and stray dogs, where vectors may be present,
increases the chances of contact with T. cruzi. Additionally, several wild species involved in
the transmission of T. cruzi live in areas close to human dwellings, offering dogs the opportunity
to interact with infected vectors or even hunt parasitized mammals.8,9 To date, there is no
consensus on the predominant transmission route in the peridomestic cycle in dogs. Some
studies suggest that infection primarily occurs through oral exposure, such as consuming
infected vectors or food containing macerated vectors, eating meat from infected mammals, or
drinking contaminated milk.10,11
Furthermore, domestic dogs are directly related to cases of CD in humans.12 Individuals
living with dogs infected with T. cruzi in their homes have a seroprevalence five times higher
compared to those without parasitized dogs in their households. Additionally, in regions where
Triatoma infestans, the main domestic vector, is present, the infection rate in dogs is higher
than in humans.5,12,13 Other triatomine vector species have been identified in the state of
Alagoas, in the municipalities of Boca da Mata, Joaquim Gomes, and Novo Lino, such as
Panstrongylus geniculatus, highlighting the importance of Chagas disease control measures in
this state and the need for further studies in species identification.14 Freitas et al.5 studied the
feeding patterns of T. infestans in domestic environments and identified dogs as the most
common food source. In northeastern Brazil, the occurrence of natural infection by T. cruzi in
dogs has been reported in Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe, and Bahia.15 However,
data on infection in Alagoas remains quite limited.16
29
Thus, considering the importance of CD in public health and the epidemiological role
of domestic dogs in maintaining vectors, this study aimed to determine and compare the
frequency of anti-T. cruzi IgG antibodies in household and shelter dogs in a municipality in
Alagoas, northeastern Brazil.
Materials and Methods
Ethical and Legal Aspects
According to Brazilian Law 11.794, dated October 8, 2008, approval from an Ethics
Committee on Animal Use is not required when biological samples are derived from diagnostic
tests conducted for veterinary or sanitary purposes. The collection of animal samples in clinical
contexts, where procedures are performed for diagnostic purposes or disease treatment, is not
considered experimental research.17 The samples were from routine care at a private veterinary
clinic and blood collections for animal neutering at shelters.
Study Area, Sampling, and Samples
Arapiraca (latitude: -9.75164, longitude: -36.6604) is the second largest municipality in
the state of Alagoas (northeastern Brazil), located in the Agreste mesoregion, 125 km from the
state capital (Maceió), and is considered an endemic area for Chagas disease (CD)18. The
climate is hot semi-humid or sub-humid tropical (Bsh type according to Köppen), with an
average temperature of 24.8°C and average rainfall of 611 mm annually.19
The samples were obtained from domestic dogs attended at a private veterinary clinic and
from two shelters (A and B). Shelter A is situated in a remote area of expanding urban
development, surrounded by sandy soil and trees. Behind Shelter A, an accumulation of waste,
the absence of sewage systems, and synanthropic animals were observed, along with reports of
the CD vector. Shelter B is a human home located in a residential area, adapted to house animals
in the exterior part of the house, with synanthropic animals. Both shelters lacked any control of
animal entry or exit records.
The sampling was initially defined considering the history of the dog population available
in both shelters over the past three years, with the following inclusion criteria: animals over six
months of age, any sex, and breed. Based on this, a sample of 150 shelter animals was estimated.
The same sample size (150) was used for household dogs. To avoid potential seasonal and/or
environmental influences, blood collections from both groups occurred concurrently over six
months (December 2023 - May 2024).
30
Serum samples presenting hemolysis were discarded. The remaining serum samples were
frozen (-20°C) until serological analysis. Before blood collection, all animals were clinically
evaluated for clinical signs suggestive of T. cruzi.
Serological Diagnosis
The detection of anti-T. cruzi IgG antibodies were performed using the Indirect
Fluorescent Antibody Test (IFAT), according to the protocol described by Camargo20. Initially,
a qualitative analysis was performed by screening the samples (cut-off ≥ 40), and positive
samples were then titrated. Negative and positive controls were included on all slides to ensure
the quality of the reaction. Samples with total peripheral fluorescence of antigens and titers ≥
40 were considered positive. Cross-reaction with Leishmania spp. was taken into account in
the interpretation of the results, given that the study area is classified as endemic for canine
visceral leishmaniasis, and co-infection with T. cruzi is common in dogs from endemic regions
21,22
Statistical and Epidemiological Analysis
Independent variables such as sex (male or female), breed (with or without breed), age
(< 2 years; 2-6 years; > 6 years), and situation (shelter or household) were recorded on
individual forms. The stratification of the dogs into three age groups was conducted according
to Harvey.23 Univariate analysis was performed to investigate the factors associated with
seropositivity for the parasite. Each independent variable was submitted to an association
analysis regarding the dependent variable (positive or negative for T. cruzi ). Independent
variables with a p-value ≤ 0.2 in the Chi-square Test with Yates’ Correction were selected for
multivariate analysis using logistic regression.24 Statistical and epidemiological analyses were
performed using the EpiInfo 7.2.10 and JASP 0.19.1.0 programs.
Results
This study analyzed 300 dog serum samples: 150 from shelter dogs (90 samples from
Shelter "A" and 60 samples from Shelter "B") and 150 from household dogs. Most of the
animals evaluated were females (68.3%, 205/300), mixed breeds (70.3%, 211/300), and aged
between 2 and 6 years (65.7%, 197/300).
A total of 9.0% of the animals tested positive for anti-T. cruzi IgG antibodies in the IFA
(27/300; 95% CI [0.063 – 0.130]). The frequency of positive shelter and household dogs was
31
77.8% (21/27; 95% CI [0.59-0.89]) and 22.2% (6/27; 95% CI [0.11-0.41]), respectively.
Among the seropositive shelter dogs, 18 were from Shelter "A" and three were from Shelter
"B".
The distribution of antibody titers was as follows: 40 in 51.85% (14/27) of the animals,
80 in 22.2% (6/27), 160 in 22.2% (6/27), and 640 in 3.75% (1/27).
The overall distribution of independent variables investigated to the dependent variable
(presence or absence of anti-T. cruzi IgG antibodies) is detailed in Table 1. Regarding the sex
of the seropositive dogs, 88.9% (24/27) were females, and 11.1% (3/27) were males. All
seropositive dogs were classified as "mixed breed" (100.0%; 27/27). Regarding the age range
of positive animals, 22.2% (6/27) were >6 years old, 74.1% (20/27) were between 2-6 years
old, and 3.7% (1/27) were <2 years old.
A case of co-infection with Leishmania spp. (titer: 320) and T. cruzi (titer: 160) were
identified in one of the shelter dogs. Two shelter dogs showed probable cross-reaction (titer 40
for both protozoa) and were excluded from univariate and multivariate analyses.
Table 1. Distribution of independent variables for household and shelter dogs with antiTrypanosoma cruzi IgG antibodies in Arapiraca, Alagoas, Northeast Brazil.
Variable/Category
IgG AntiTrypanosoma cruzi
N
% total
R
NR
R
NR
6
144
23
127
2.0 %
48.0%
7.7%
42.3%
R
NR
R
NR
3
92
26
179
1.0%
30.7%
8.7%
59.7%
R
NR
R
NR
29
182
0
89
9.7%
60.7%
0.0%
29.7%
R
6
2.0%
Univariate
Analysis (p-value)
Situation
Household
Shelter
0.002
Sex
Male
Female
0.017
Breed
Mixed
Pure
Age
> 6 years
***
32
NR
R
NR
R
NR
2-6 years
< 2 years
64
20
175
1
32
21.3%
7.3%
58.3%
0.3%
10.7%
0.322
R = reactive; NR = non reactive
The variables associated with seropositivity for T. cruzi (p ≤ 0.20) in the univariate
analysis were: sex (male vs. female; p = 0.017) and animal status (shelter vs. household; p =
0.0020). In the multivariate analysis, the origin of the dogs was a statistically significant
variable, with shelter dogs having a higher likelihood of being seropositive than domestic
animals (Table 2).
Table 2. Multivariate analysis using logistic regression for factors associated with the risk of
seropositivity for Trypanosoma cruzi in dogs from Arapiraca, Northeast Brazil.
Variable
Coefficient
Sex
1,0471
Situation
Constant
Standard
Confidence
p-value
Odds Ratio
0,6488
0,1065
2,84
(0,79-10,16)
1,1915
0,4928
0,0156*
3,29
(1,25-8,64)
-3,8365
0,6348
0,0000
Error
Interval (95%)
* significant p-value
Discussion
The prevalence described in this study (9.0%) is similar (p-value = 0.1911; 95% CI
[0.0627 – 0.1293]) to that reported by other authors also using the IFAT as a serological test.
3,5,25
Despite studies on this topic, the epidemiology and seroprevalence of T. cruzi in
companion animals are poorly understood, and canine CD is likely underreported and
underdiagnosed.2
However, high prevalences of T. cruzi in dogs from the northeastern region of Brazil
have been reported: 22% in communities along the Jaguaribe River Valley, with a
predominance of Triatoma pseudomaculata infesting livestock pens, pigsties, and chicken
coops;26 and 38.0% in the Caatinga area of Ceará state, in regions heavily colonized by
Triatoma brasiliensis adapted to the into domestic environment.27 No triatomine insects were
found during this study, although the managers of both shelters reported them.
33
On the other hand, the seroprevalence observed in this study was higher than that found
in the coastal region of southern Alagoas, which detected 3.8% seropositivity.16 The variation
in the number of infected dogs within the same area may be related to specific epidemiological
characteristics of each region, such as sanitary and housing conditions, triatomine density, and
the presence of synanthropic animals and infected individuals.28
All seropositive dogs in this study (27/27) were asymptomatic, including the animal
with a titer of 640. Dogs infected for more than six months do not show signs of acute disease
and progress to the chronic phase approximately 30 days post-infection, either remaining
asymptomatic (also referred to as the "indeterminate form") or becoming symptomatic, with
clinical signs ranging from absent to severe.29,30 The indeterminate form is considered a benign
clinical condition characterized by positive serological or parasitological results for T. cruzi
infection in dogs without clinical manifestations of the disease. Similarly, asymptomatic
humans with CD present with normal electrocardiogram results and radiological patterns in the
heart, esophagus, and colon. 5,31
No association was found between breed, sex, age of the animal, and positivity for T.
cruzi infection. The lack of an association between T. cruzi and dog breed has been reported in
previous studies 32,33, as well as for sex 25,34,35 and age.32,36
In the present study, shelter dogs were 3.29 times more likely to have anti-T. cruzi IgG
antibodies compared to household dogs. This finding is supported by studies that investigated
the prevalence of T. cruzi in shelter dogs.33,37,38 Prolonged exposure of dogs in outdoor
environments, where vectors may be present, increases the chances of street and shelter dogs
coming into contact with T. cruzi. Additionally, wild animals that participate in the transmission
of the parasite tend to live in areas close to human dwellings, which puts dogs at risk of
interacting with vectors or even hunting infected mammals.8,9
The characteristics of shelters may contribute to infection. Arce-Fonseca et al.39
observed an increased proportion of seropositive animals in areas near forests with palm trees
and açaí, where triatomines were found, and dogs had free access to these areas. Furthermore,
factors such as mud-based internal walls, clay or sandy floors, roof covering types, eaves, and
proximity to vegetation can also favor the transmission cycle.40,41 In this study, due to the nature
of the two shelters, it was not feasible to analyze the association between shelter characteristics
(infrastructure and environmental management) and T. cruzi infection in dogs
In light of this, it is evident that CD control programs should include a specific approach
for animal shelters in endemic areas, providing technical guidance to shelter managers to adopt
34
offensive and defensive measures against the disease vector, environmental management
actions around shelters to avoid waste and debris accumulation, as well as health education
practices.42
Conclusion
This study demonstrates the circulation of T. cruzi in dogs in Alagoas. The seropositivity
in shelter dogs enables these animals to be sentinel groups for identifying risk areas, employing
geoprocessing tools. In this way, epidemiological surveillance services and local control
programs for Chagas disease can use this strategy to anticipate outbreaks and cases in human
populations.
CRediT authorship contribution statement
Carolina Ferreira de Oliveira: Writing – original draft, Project administration, and
Visualization. Pedro Levi Nascimento Oliveira: Methodology. Jussara Nayanne dos Santos
Nascimento: Methodology. Márcia Kikuyo Notomi: Methodology. Gabriela de Lima
Rodrigues Pinto: Validation, Resources, and Investigation. Bruna Nobre de Souza:
Validation, Resources, and Investigation. Victoria Gamboa Braga: Validation, Resources,
and Investigation. Vitória Maximiana Soares dos Santos: Validation, Resources, and
Investigation. Luiz Daniel de Barros: Validation, Resources, and Investigation. Hélio
Langoni: Validation, Resources, and Investigation. Simone Baldini Lucheis: Validation,
Resources, and Investigation. Jonatas Campos de Almeida: Writing – original draft, Writing
– review and editing, Supervision, Formal analysis, and Visualization.
Conflict of Interest Statement
The authors declare that they have no known financial or personal relationships that
could have influenced the work reported in this article.
Acknowledgments
This article is based on the Master's degree in Animal Science (Graduate Program in
Animal Science) of the first author, developed at the Federal University of Alagoas. C.F.O.
received a research grant (process number: E:60030.0000000350/2023) from the Foundation
for the Support of Science of the State of Alagoas (Fapeal). The detection of IgG anti-T. cruzi
35
antibodies were performed at the Zoonosis Diagnostic Laboratory of the São Paulo State
University (Unesp), Botucatu, Brazil.
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40
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados apresentados nesta dissertação evidenciam de forma indireta a circulação
do protozoário T. cruzi no município de Arapiraca, Alagoas, destacando um importante cenário
e salientando a importância de uma pesquisa epidemiológica direcionada, considerando as
características específicas de determinadas áreas e o contexto particular dos cães, uma vez que
fatores locais influenciam diretamente na prevalência e na distribuição da doença. A detecção
da infecção em cães reforça a hipótese de que a prevalência da DC na população canina pode
estar subestimada no município, o que potencialmente aumenta o risco de transmissão para a
comunidade local. Este dado é especialmente relevante no contexto de saúde única,
considerando a interação entre animais, humanos e o ambiente.
Além disso, este estudo demonstrou uma maior soroprevalência de T. cruzi em cães
abrigados em comparação aos cães domiciliados, sugerindo que estes estão mais
frequentemente expostos a condições que os tornam mais vulneráveis à infecção. Fatores como
maior exposição a vetores infectados, ausência de medidas preventivas adequadas e alta
densidade de cães em espaços limitados podem intensificar o risco de infecção nesses
ambientes.
Esses achados demonstram que cães provenientes de abrigos constituem uma população
sensível para a avaliação do risco local de transmissão da DC, principalmente porque
representam uma alternativa viável e econômica para estratégias de vigilância e controle em
regiões endêmicas, uma vez que os cães abrigados são de fácil manejo e seus movimentos são
limitados. Ademais, esses animais podem ser considerados sentinelas da circulação do T. cruzi,
possibilitando uma análise mais precisa da dinâmica de transmissão da doença em determinadas
áreas, função já descrita em estudos anteriores.
Dessa forma, a investigação de infecção por T. cruzi em cães de abrigos naturalmente
infectados e sem características da doença pode contribuir para a identificação precoce de
regiões de maior risco. Uma abordagem interdisciplinar que integre políticas públicas, ações
educativas voltadas à guarda responsável e vigilância epidemiológica em populações de
animais abrigados são fundamentais para proteger tanto a saúde animal quanto a saúde humana.
